O World Energy Outlook 2025 (WEO-2025), novo relatório da Agência Internacional de Energia (IEA) sobre tendências do setor, traz uma mensagem preocupante e, ao mesmo tempo, estratégica: o planeta ultrapassará a marca de 1,5°C de aquecimento em qualquer cenário, inclusive naqueles com cortes rápidos e profundos de emissões de gases de efeito estufa (GEE).
A publicação reconhece que os riscos climáticos — ondas de calor, estresse hídrico, eventos extremos e impactos sobre energia, agricultura e infraestrutura — já estão contratados para as próximas décadas. Isso significa que o setor energético global precisará se preparar para operar sob condições de segurança mais severas, com sistemas elétricos mais resilientes, redes flexíveis e novos mecanismos de resposta a eventos climáticos.
Mas o WEO-2025 não entrega só derrotismo. Também considera que há uma janela de oportunidade e espaço para evitar os piores cenários. O caminho ideal é aquele em que o mundo atinge emissões líquidas zero até meados do século. Com isso, é possível reduzir o aquecimento e trazer a temperatura novamente abaixo de 1,5°C no longo prazo.
Isso depende de três fatores: acelerar o uso de fontes renováveis de energia, reduzir drasticamente a geração a carvão e gás e escalar tecnologias críticas como armazenamento, hidrogênio, captura de CO2 e eficiência energética. Ultrapassar 1,5°C não significa desistir do objetivo — significa ir mais rápido, com foco e realismo, entende a IEA.
Era da eletricidade
O World Energy Outlook 2025 considera que vivemos uma virada histórica: a Era da Eletricidade deixou de ser promessa e já é realidade. Se antes o avanço no consumo elétrico era puxado principalmente por economias emergentes, agora também cresce com força nos países desenvolvidos porque a IA – e seus data centers – elevou a demanda a um novo patamar. Com a transição em curso, cresce também a procura para uso em mobilidade, aquecimento, refrigeração, iluminação e na indústria.
Digital e energética
O estudo da IEA informa que em 2025 os investimentos globais em data centers devem chegar a US$ 580 bilhões — superando, pela primeira vez, os US$ 540 bilhões destinados ao fornecimento mundial de petróleo. É a economia digital redesenhando o mapa da energia, diz a agência. O relatório também destaca o peso crescente das economias emergentes — com Índia e Sudeste Asiático à frente, seguidos por Oriente Médio, África e América Latina. Esse bloco vai influenciar a dinâmica energética global, aponta a publicação.
H2v na hora da verdade
O relatório da IEA trouxe um outro dado simbólico sobre a transição energética: o hidrogênio verde segue sendo peça importante, mas a euforia inicial deu lugar a um diagnóstico pragmático. O setor avançou menos do que se projetava. Primeiro, pelo alto custo: o hidrogênio renovável ainda é entre duas e três vezes mais caro que alternativas fósseis, exigindo políticas robustas para reduzir o green premium. O segundo fator é a lentidão regulatória. O terceiro é a necessidade de mercados finais bem definidos — aço verde, fertilizantes de baixo carbono, transporte pesado e usos industriais onde eletrificação direta não é possível?
Agir já e depressa (I)
Uma nova declaração internacional, assinada por centenas de cientistas, reacendeu o alerta sobre a velocidade da crise climática. Conhecida como Declaração de Dartington, ela faz um apelo direto a líderes e formuladores de políticas públicas: agir já e agir depressa. O documento afirma que a humanidade será empurrada para uma “zona de perigo” caso as emissões globais não sejam reduzidas pela metade até 2030, em relação aos níveis de 2010, e não alcancem emissões líquidas zero até 2050.
Agir já e depressa (II)
A iniciativa é coordenada pela Universidade de Exeter e pela WWF do Reino Unido e a declaração acompanha a divulgação do Global Tipping Points Report 2025, que revelou que o planeta já ultrapassou seu primeiro ponto de ruptura climático de consequências potencialmente irreversíveis — o colapso acelerado dos recifes de coral, afetados por ondas de calor marinhas sem precedentes.
Agir já e depressa (III)
O documento ganhou peso científico e político: até agora, 583 pesquisadores e 579 profissionais com doutorado ou qualificações superiores já subscreveram o alerta de que o tempo para ajustes graduais terminou. A ciência pede ação imediata, coordenada e ambiciosa para evitar que outros pontos de inflexão — como a perda de geleiras, o colapso de ecossistemas tropicais e mudanças abruptas em correntes oceânicas — empurrem o planeta para uma trajetória ainda mais perigosa.
Economia a favor do clima
Relatório conjunto da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) indica que a ampliação das metas climáticas nacionais — as chamadas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) — pode elevar o PIB global em até 3% até 2050 e 13% até 2100. O estudo mostra que políticas integradas de clima e desenvolvimento podem retirar 175 milhões de pessoas da pobreza extrema e melhorar a saúde pública. O gargalo, destacam os autores, é transformar metas ambiciosas em planos viáveis e atraentes para investimentos.
Foto: Nasa
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