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MARCUS VIDAL CABECA hojesc

Whitesnake e o equilíbrio entre o blues e o hard rock

Ready An’ Willing é um dos trabalhos mais fortes da primeira fase do Whitesnake. Lançado em 23 de maio de 1980, é um daqueles álbuns em que a formação da banda parece ter encontrado um equilíbrio quase perfeito entre blues, hard rock, soul e a tradição do rock britânico dos anos 1970. A voz de David Coverdale está no centro de tudo, mas o álbum é essencialmente um trabalho coletivo. Bernie Marsden e Micky Moody formam uma dupla de guitarras que privilegia a interação em vez da competição. Neil Murray fornece um baixo extremamente musical, Jon Lord acrescenta teclados e outras texturas e Ian Paice oferece uma bateria de enorme autoridade. O resultado não é simplesmente uma continuação do Deep Purple. A herança é evidente, principalmente na presença de Lord e Paice, mas a banda já possui sua própria personalidade. E essa personalidade está especialmente ligada à voz de Coverdale, rouca, sensual, bluesística e capaz de alternar delicadeza e explosão.

 

whitesnake Ready An Willing

 

A abertura é uma das melhores canções de toda a carreira da banda. Fool For Your Loving funciona porque sua composição é extremamente econômica. O riff não precisa ser complicado, ele estabelece imediatamente o groove, deixando espaço para o baixo, a bateria e principalmente a voz. Neil Murray é fundamental. Seu baixo não simplesmente acompanha as guitarras, ele cria movimento dentro da harmonia. Ian Paice, por sua vez, transforma uma estrutura relativamente simples em algo extremamente vivo. As duas guitarras também são fundamentais. Marsden e Moody trabalham dentro de uma linguagem bluesística, mas com peso suficiente para transformar o material em hard rock. E então temos Coverdale. Sua interpretação é magnífica porque existe uma contradição entre a força da voz e a vulnerabilidade da letra.

 

 

Sweet Talker muda o clima sem abandonar o groove. A canção é mais direta e descontraída. A guitarra possui uma forte influência do blues britânico, mas o arranjo tem energia suficiente para funcionar perfeitamente como hard rock. Micky Moody ganha destaque com seu trabalho de slide, acrescentando uma textura diferente às guitarras. Bernie Marsden fornece o peso necessário para equilibrar essa característica mais bluesística. Jon Lord aparece com seu Hammond, e sua presença é extarordinária. Ian Paice novamente demonstra seu domínio do groove. É uma bateria que possui força, mas também balanço. Coverdale canta com enorme personalidade. Aqui ele está menos preocupado com sofrimento e mais interessado em atitude.

Ready An’ Willing, a faixa-título, é a melhor representação do som coletivo do álbum. O riff é simples, mas extremamente eficiente. A canção não depende de velocidade, seu poder está no balanço. O baixo de Neil Murray faz a levada ficar sensacional. Ian Paice trabalha com enorme sutileza. A bateria parece relaxada, mas tem poder. As guitarras de Marsden e Moody também funcionam muito bem em conjunto. Coverdale, naturalmente, domina o centro do arranjo. Sua voz possui uma sensualidade quase física, e ele transforma uma letra relativamente simples em uma performance extremamente carismática.

Depois da energia das três primeiras faixas, Carry Your Load reduz a velocidade. A canção é construída mais em torno da atmosfera do que do riff. Coverdale assume uma postura mais introspectiva, e a voz passa a ser o principal instrumento expressivo. O interessante é que ele não precisa recorrer aos seus agudos mais poderosos. Trabalha principalmente com o registro médio e grave, explorando a textura rouca da voz. A guitarra é mais discreta. O baixo de Murray, entretanto, continua funcionando como elemento estrutural. Sua presença impede que a música se torne excessivamente leve. Paice também reduz a intensidade, tocando de maneira econômica e deixando os momentos de maior impacto para quando realmente são necessários.

 

 

Blindman é uma das grandes peças do álbum. A canção já existia anteriormente na carreira solo de Coverdale, mas aqui ganha uma dimensão diferente. A banda transforma a composição em um blues lento, pesado e profundamente emocional. É a faixa em que Coverdale mais claramente demonstra sua capacidade de interpretar uma canção, e não simplesmente cantá-la. As guitarras também são extremamente importantes. Jon Lord cria uma espécie de ambiente harmônico ao fundo, enquanto Neil Murray mantém a estrutura grave.

Uma das características mais interessantes de Ain’t Gonna Cry No More é sua construção. A canção começa com uma textura mais acústica, quase folk, e cria a expectativa de uma balada. Mas a banda gradualmente transforma essa atmosfera. Esse contraste é provavelmente seu maior mérito. Ian Paice desempenha papel fundamental nessa transformação. Ele não entra tocando alto. Sua bateria aumenta progressivamente. Coverdale também cresce junto com a música. Começa cantando de forma quase conversada e termina Love Man mergulha diretamente no blues. Ian Paice está excelente. Sua bateria tem aquele balanço característico dos grandes bateristas de blues rock britânico. Neil Murray acompanha com uma linha de baixo que mantém a canção em movimento. Não existe necessidade de velocidade. Coverdale está completamente confortável nesse ambiente. Sua voz grave e rouca se encaixa perfeitamente no blues. Jon Lord aparece mais discretamente, permitindo que as guitarras ocupem o centro.

Black And Blue recupera a energia do álbum. A canção tem uma estrutura de boogie pesado, e novamente Ian Paice assume enorme importância. As guitarras são mais agressivas e trabalham com riffs bem definidos. Coverdale está agressivo. Sua interpretação possui aquela característica quase teatral que se tornaria uma de suas marcas registradas.

 

 

O álbum termina em alta. She’s A Woman reúne praticamente todos os elementos que definem a banda dessa época. O riff de guitarra é forte, o groove é pesado, o Hammond acrescenta textura e Coverdale canta com enorme autoridade. Marsden e Moody novamente trabalham como uma dupla, evitando transformar a canção em uma competição entre guitarristas. Neil Murray dá peso ao riff. Ian Paice toca com energia, mas sem perder o balanço. Jon Lord acrescenta o tempero do Hammond. Coverdale, finalmente, parece estar completamente à vontade. É um encerramento espetacular.

Ready An’ Willing é, acima de tudo, um álbum de equilíbrio. Ele equilibra blues e hard rock. Equilibra peso e melodia. Equilibra improvisação e composição. Equilibra a tradição do Deep Purple com a identidade crescente do Whitesnake. E, principalmente, equilibra músicos extremamente talentosos sem permitir que o virtuosismo se torne mais importante que as canções. É blues rock britânico com músculos de hard rock. De rock’n’roll. O bom e velho rock’n’roll.

Imagem: Reprodução

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