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ERNANI BUCHMANN CABECA hojesc

Wagner, o cínico

O melhor amigo que tive era um cínico de fraque e cartola, um cínico solene. Não perdoava ninguém, dos mais simples às majestades. Seu cinismo era resultado do completo ceticismo a todas as convenções e entidades, aos ritos e às tradições. Um espírito crítico exacerbado, aliado à capacidade de sustentar narrativas improváveis na maior cara dura. Vou chamá-lo de Wagner.

Certo dia, foi chamado pela mãe. Corria o boato de que ele estava bebendo demais. Wagner apresentou-se à casa materna, ouviu as suas preocupações, as histórias de que começava a beber ainda pela manhã, a necessidade de mudar de vida. Ele retrucou indignado:

– Isso é uma tremenda mentira, mamãe. A senhora sabe que sou um homem de leite e frutas!

Dito isso, foi embora batendo o pé. Era absurdo dizerem que bebia desde cedo, isso ocorria eventualmente. Como em um carnaval em Balneário Camboriú, ao se servir de uma dose antes do café da manhã:

– Um whisquinho vale por um bifinho!

Uma tarde combinamos de almoçar. Cheguei antes ao restaurante e o esperei lendo o Jornal do Brasil. Quando ele chegou, comentei sobre uma notícia que havia acabado de ler:

– Aqui diz que cada cigarro fumado tira cinco minutos da vida do fumante. Ele respondeu na bucha:

– Manda comprar um pacote na esquina para a gente adiantar o processo.

A um amigo comum que se gabava de namorar a garota mais linda do Rio de Janeiro, rica de andar de Mercedes com chofer, ter estudado na Suíça e falar cinco línguas, Wagner aconselhou:

– Se ela não tiver mau hálito, deve ter chulé. Ninguém é perfeito, meu caro, todo mundo tem defeito.

O dele foi a despreocupação com a vida. Não ligou para o fato de urinar sangue até desmaiar em um avião Londres-Paris, onde vivia. Um dos rins estava afetado pelo câncer. Depois de muita quimio, o médico avisou que havia detectado um ponto preto no pulmão. Ele olhou a imagem:

– Esse pontinho aí? Isso não é nada, deve ser nicotina!

O câncer alastrou-se e o levou na virada do milênio. Tivemos o cuidado de colocar no caixão a garrafa de Jonny Walker, com um terço ainda a beber, depois do líquido escocês ter nos consolado durante o velório, a mim e ao Dico Kremer.

O grande cínico levou com ele o humor escrachado, a descrença, o desrespeito aos dogmas. E deixou muita saudade a este amigo, hoje restrito, enfim e de verdade, ao leite e às frutas.

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