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maria do rocio vaz cabeca

Você passou por mim

mulher

Quando me dei conta, eu já estava ali — inteira — e, ainda assim, invisível.

Você nunca tocou os meus cabelos, quando eles ainda molhados, se enroscavam em caracóis desarrumados, livres de qualquer tentativa de ordem. Havia uma beleza ali, que não pedia permissão, mas você não percebeu.

Você nunca viu os meus olhos sem maquiagem. Eles são ternos, límpidos, profundos. Você se perderia… ah, e eles falam a verdade.

Você também não conheceu o cheiro natural da minha pele. A fragrância é de aconchego. Você se sentiria em casa. Mas você não chegou tão perto.

Você não me convidou para dançar nem para cantar qualquer música dos anos 80. Eu não fui sua Eva, nem sua Menina Veneno, muito menos cheia de charme, ali tão perto, eu que era nascida para amar.

Nem fazia seu gênero ser meu fã número um. Para falar a verdade você nunca foi dono do mar azul, nem de todo azul do mar. E, pelo jeito, o nosso amor, nunca esteve escrito nas estrelas, segundo as canções da mocidade.

Mas, o tempo todo eu soube que “ainda que se falasse a língua dos homens e dos anjos, se não houvesse amor, seria como o sino que ressoa. O amor se alegra com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”

Fria e sem razão, a vida prosseguia.

Você não me convidou para catar as folhas do quintal, nem para plantar sementes de girassóis ou batata-doce. Nós não andamos de bicicleta, não subimos um monte, sequer passeamos até uma cachoeira.

Você não achou graça ao me ver tomar dois picolés de limão ao mesmo tempo, grávida de felicidade, lambendo os dedos feito criança.

Você não enxergou a alegria – nem o talento, nem a fantasia, tampouco a minha natureza de menina nascida para amar. Você sequer se reconheceu nas minhas linhas, que o tempo vai, pouco a pouco apagando.

Você não enxergou o meu sorriso desprevenido, nem os outros. Você não vibrou quando meus olhos brilharam, nem riu comigo até chorar.

Não, você não riu.

Você também não me viu chorar. Não sentiu muito – nem nada.

Você nunca me viu – e eu era o tempo todo nascida para amar.

Por décadas, anos, meses, dias, horas, minutos e segundos, nunca me viu.

E, mesmo assim, houve quem me visse de longe, como se já soubesse: eu era nascida para amar.

“De longe se me deixou ver o Senhor dizendo: Com amor eterno te amei por isso com benignidade te atraí.”

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