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Viver na verdade

Viver na verdade

flavio

Nas eleições presidenciais de 2026, Flávio Bolsonaro disputou a Presidência da República e recebeu quase 60 milhões de votos. Perdeu para Luiz Inácio Lula da Silva. No dia seguinte à derrota, de forma pouco transparente, deixou o país rumo aos Estados Unidos, sob o argumento de sofrer “perseguição judicial”.

Pois bem. Não se negam os abusos apontados em decisões do Ministro Alexandre de Moraes, tema que merece debate sério e permanente em qualquer democracia. Há, porém, uma questão anterior, que não é jurídica, mas moral: quem se dispõe a liderar uma comunidade não pode abandoná-la. Quase 60 milhões de brasileiros confiaram-lhe não apenas um voto, mas uma esperança. Partir logo após a derrota, sem enfrentar no próprio país as consequências de suas escolhas e convicções, transmite a esses eleitores uma mensagem de fraqueza. Se há um ideal, o lugar de defendê-lo é aqui, em solo brasileiro, perante as instituições, ainda que imperfeitas. Resistir não é fugir. Resistir é permanecer.

Em casos tais, recomenda-se a leitura da biografia de Václav Havel. Dramaturgo tcheco, Havel foi um dos primeiros porta-vozes da Carta 77, documento que cobrava do regime comunista da antiga Tchecoslováquia o respeito aos direitos humanos que o próprio Estado havia se comprometido internacionalmente a observar. Por essa militância, foi preso diversas vezes, e a pena mais longa o manteve encarcerado de 1979 a 1983. O regime o pressionou a deixar o país. Havel recusou e permaneceu. Em 1989, com a Revolução de Veludo, tornou-se presidente da Tchecoslováquia e, depois, da República Tcheca, funções que exerceu até 2003.

No ensaio “O poder dos sem poder” (1978), Havel defendeu que a resistência começa pela decisão individual de “viver na verdade”, recusando-se a participar da mentira que sustenta o poder. Para Havel, aliás, esperança não se confunde com otimismo: não é a convicção de que tudo dará certo, mas a certeza de que algo faz sentido, independentemente de como termine.

O exemplo não é isolado. Nelson Mandela passou 27 anos preso pelo regime do apartheid. Em 1985, recusou a oferta de libertação feita pelo presidente sul-africano P. W. Botha, porque a liberdade vinha condicionada à renúncia de sua luta contra a opressão. Saiu da prisão em 1990 sem ter transigido e, em 1994, foi eleito presidente da África do Sul. Verdadeiros líderes resistem. Não negociam seus princípios em troca de conforto pessoal e, sobretudo, não deixam seus liderados para trás. Sempre buscam, mesmo nas piores condições, a esperança de um mundo melhor.

Seja como for, em política não existe espaço vazio. A liderança que se ausenta será ocupada por outra, e a vida democrática seguirá. E é justamente aí que reside a esperança, que não depende de um homem só, de um partido ou de um resultado eleitoral. Ela está inscrita no pacto que a sociedade brasileira firmou em 1988. A Constituição Federal fundamenta a República na “dignidade da pessoa humana” (art. 1º, III) e estabelece como seus objetivos fundamentais “construir uma sociedade livre, justa e solidária” (art. 3º, I) e “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais” (art. 3º, III).

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