Dia desses, conversando com o advogado Vitorio Sorotiuk, lembrei de uma madrugada de 1967, na calçada em frente ao Cine Avenida. Éramos alguns calouros de Direito saídos do Bar Mignon, o conhecido cachorro-quente (ou cachorro era apelido do bar vizinho?) em torno do Vitorio, nascido em Campo Mourão, a nos fazer gargalhar com histórias de um padre da cidade e outros episódios da colônia ucraniana local.
No ano seguinte, Vitorio, já ligado à esquerda clandestina, foi preso e torturado, até conseguir fugir do país. Contou que tem vontade de escrever um livro sobre sua vida em 1968. Achei ótima a ideia, já que, como escreveu Zuenir Ventura, aquele foi o ano que não terminou.
Não terminou porque, no dia 13 de dezembro, quando já não se imaginava que algo pudesse acontecer até o dia 31, o Brasil foi surpreendido com a edição do Ato Institucional nº 5, o famigerado AI-5, responsável por acabar com o habeas-corpus e instituir a pena de morte para crimes de natureza política, entre outros presentes de Natal. Presentes de grego, esclareça-se.
Lembro bem daquela noite. Eu cursava o segundo ano de Direito, já na histórica Faculdade de Direito do Recife. Saí de casa para ir estudar na própria faculdade para a prova final de Direito Penal. O rádio do carro tocava música quando a emissora entrou em cadeia nacional. Ouvi então a voz grave e perfeita de Alberto Cury (irmão do cantor Ivon Cury e do narrador esportivo Jorge Cury) a anunciar a edição do ato. A palavra passou para o Ministro da Justiça, Gama e Silva, responsável por ler a íntegra do decreto. O AI-5 foi aquele em que os ministros aceitaram jogar a Constituição no lixo – entre eles, Jarbas Passarinho, Ministro do Trabalho, que mandou seus escrúpulos às favas.
Também assinou o AI-5 o Ministro da Agricultura, Ivo Arzua Pereira, ex-prefeito de Curitiba, cuja eleição venceu com o slogan “mais ação e menos conversa”. Sem querer conversa, jamegou o papel maldito.
O ano não terminou porque muitos deixaram a pátria amada e só voltaram mais de uma década depois, na esteira da lei da anistia, Vitorio entre eles.
Muitos conhecidos meus embarcaram naquele rabo de foguete, como escreveu Aldir Blanc. Tanto da Federal do Paraná como da Federal de Pernambuco. Lá, fui contemporâneo de Alceu Valença, estudante do mesmo segundo ano, mas no período noturno. Jarbas Depois, voltei para a Federal do Paraná e peguei minha turma de novo. Assim como tive ótimos professores em Recife, tive outros, antológicos, em Curitiba – René Dotti, nosso paraninfo, foi sempre a minha maior referência.
Vitorio segue fazendo política, agora também em favor da Ucrânia, como vice-presidente para a América do Sul do Congresso Mundial Ucraniano.
Considere-se, pois, intimado, Dr. Vitorio. Estamos outra vez envolvidos em guerras e nunca se sabe onde cairá a próxima bomba. Que este 2026 possa, ao menos, terminar. Caso contrário, seria bom se eu fosse evaporado depois de ter lido seu livro.
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