Texto de Adriana Dias Titton, colunista convidada
A convite de minha mãe e do HojePR, venho compartilhar um pouco do que já consigo entender e nomear sobre essa nossa experiência preciosa com o povo Waurá, da aldeia Ulupuwene, no Alto Xingu. Venho da Psicologia, então, gosto dessa perspectiva do nosso mundo interno que, ao invés de afirmar verdades ou tentar descrever o que nos acontece de forma objetiva, compartilha como as experiências nos afetam individualmente, desdobrando-se em novos jeitos de olhar, sentir, entender e maravilhar-se com a vida.
Desde a época em que minha mãe fazia suas pesquisas sobre o Xingu para sua arte, quando eu tinha por volta de dez anos de idade, esse se tornou um tema marcante para mim. Lembro de assistirmos juntos, em família e com grande curiosidade, o documentário transmitido na TV sobre o Kuarup; dos livros sobre mitologia indígena para pesquisa e a presença de suas obras, em processo de criação, espalhados em nossa casa (feixes de piaçava, pedaços de troncos de madeira, tecidos pintados com grafismos em preto, branco e vermelho); e a voz de Bidu Sayão cantando ‘Melodia Sentimental’, da ‘Floresta Amazônica’ de Villa-Lobos (CD que mantenho no carro para ouvir quando dá vontade).

Quarenta anos depois, essas lembranças vieram à tona, com um misto de nostalgia daquela época e um interesse pessoal pelos povos originários, que me visitam com alguma frequência nos meus sonhos, à noite, sempre como expressão de alegria, colorido, espontaneidade, autenticidade e leveza. E, dessa mistura de boas lembranças com algo mais intuitivo que me chamava para uma experiência assim, mergulhamos juntas, mãe e filha, nessa aventura.
Eu pressentia que seria uma vivência muito significativa, mas não sabia exatamente como. Achei que choraria lá de emoção em muitos momentos, desde a chegada – o que quase não aconteceu, para minha surpresa. Mas aconteceu depois, quando voltei para casa. Porque foi como se eu estivesse com uma experiência intensa não decodificada em palavras ainda, compactada dentro de mim que, ao longo dos dias e semanas que se seguiram ao nosso retorno, foi se abrindo, desdobrando como uma flor que desabrocha silenciosamente, revelando-se em todos os seus detalhes, beleza e cores.

A sensação era a de me sentir em um lugar entre dois mundos: esse nosso mundo “urbano”, no qual o ser humano — com seus interesses e necessidades infindáveis — se coloca como separado e acima de tudo e de todos os outros seres, e esse outro mundo, o dos povos originários, das diferentes etnias ao redor do planeta, que lutam pelo direito de sobreviver, tendo respeitadas as suas culturas e tradições, suas formas de entender suas existências como parte desse Universo, em uma relação mais equilibrada e harmoniosa com a Natureza, seus ciclos e todos os outros seres que a compõem. Nunca tinha tido, até então, essa sensação do estar ‘entre dois mundos’, visto que sempre estive mergulhada exclusivamente no nosso ‘urbano’. E poder visitar com curiosidade, interesse e abertura esse outro povo em sua casa, me permitiu experenciar e sentir (e entender só mais tarde!) a beleza de redescobrir que há uma infinidade de mundos e jeitos muito bonitos e valiosos de viver, que coexistem nesse mundo que a gente considera ‘só nosso’ e que tentamos grosseiramente impor a todos os demais.
Tantos aspectos da ‘Arte de Viver’ desse povo (como intitulou minha mãe, em seu texto da coluna passada) me encantaram, porque há uma riqueza de sua cultura, tradições e significado que se mantém preservada e continua sendo aprendida pelos mais novos no seu cotidiano e festas/rituais, somada à integração de elementos da nossa cultura ‘urbana’: as pinturas corporais e os adornos; os artesanatos e artefatos (o povo Waurá, em particular, é muito conhecido por sua cerâmica); os diferentes rituais, músicas, cantos e seus significados; a construção das casas e sua posição no espaço da aldeia (onde o espaço central, que dá para a porta da frente de cada oca, é de caráter mais ‘social’, e o espaço interno e dos fundos de cada casa é de foro mais íntimo de cada família). Nesses dias com eles, a alegria de me sentir convidada a participar de momentos mais ‘íntimos’, como da brincadeira com as meninas no rio Batovi, ou da conversa ao redor do fogo com uma das famílias que preparava o peixe para seu almoço, ou ficar na rede ouvindo as histórias contadas pelo nosso anfitrião, Tupanumaka Waurá, ou sentada com as mulheres que faziam colares de miçanga e conversavam enquanto uma outra pintava o corpo do seu marido para a dança de mais tarde. A integração com todos os elementos da Natureza, que fazem parte de suas histórias, rituais, atividades cotidianas e Cosmovisão, com seu ritmo de vida que segue ‘o tempo de cada coisa’ feita com presença (o tempo de plantar, de descansar, de banhar, de brincar, de viver o luto, de celebrar, de pescar, de cozinhar, de namorar, de fazer artesanato, etc); a forma de nomear as pessoas, os espíritos e outros povos, aproveitando o que é característica marcante de cada um; a priorização do coletivo na sua forma de comunicar e de funcionamento da aldeia (os Waurá valorizam muito a comunicação e a tomada de decisões em grupo e dizem que não são tão bons guerreiros pois ‘guerreia quem não sabe conversar!’); o exercício de integrar as modernidades e recursos/instrumentos da nossa vida urbana na deles, bem como de ir para a cidade para estudar e se profissionalizar em áreas diversas, para poder voltar e beneficiar seu povo e/ou representá-los por meio de sua própria voz e seu próprio olhar no nosso mundo ‘urbano’ – nas Artes, na Política, na Comunicação, no Ensino, por exemplo – onde quer que eles queiram estar e participar.

O que percebo, hoje, é que essa breve convivência com os Waurá tirou uma espécie de ‘venda’ dos meus olhos que só conhecia esse jeito ‘urbano’ de viver – e que continua a fazer parte de quem eu sou e de como vivo. Mas me vejo transformar em uma versão mais mestiça e miscigenada de mim mesma – coisa de que gosto muito! – que tem um tanto de alma indígena e que, por isso, me faz querer e buscar jeitos de me manter conectada e próxima desses povos para, quem sabe, ajudar a trazer de volta para o meu e o nosso mundo ‘urbano’ mais dessa beleza, integridade e sabedoria dos povos originários.
(Ilustração de abertura:”Entrada da aldeia Ulupuwene/MT” – Agosto /2026 foto Adriana Titton.)


