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KARLA KUSTER CABECA hojesc

Venda muito e quebre mesmo assim: o erro que mata mais empresas do que uma crise

No mundo corporativo, todo mundo quer ser estrela: o marketing com campanhas lindas, a inovação com produtos revolucionários, o comercial fechando vendas históricas. Mas, quando a cortina fecha, a verdade é crua: o financeiro é a raiz. Sem raiz forte, a árvore cai.

Certo, vamos deixar claro: o financeiro não gera dinheiro. Ele administra, protege, multiplica, defende. Quem gera dinheiro é a venda, o comercial. Sem pedido de venda assinado, sem contrato fechado, sem cliente dizendo “pode entregar”, não entra um Real no caixa. O financeiro pode ser brilhante, fazer mágica com aplicação, travar câmbio no melhor momento, negociar juro de dar inveja, mas se o comercial não trouxer receita, é só malabarismo com vento.

É uma dança de dois. O comercial precisa do financeiro para saber para quem pode vender, até onde pode esticar prazo, quanto desconto consegue dar sem sangrar o caixa, qual cliente vale o risco de crédito. O financeiro precisa do comercial para ter fluxo previsível, entrada recorrente, margem que justifique o custo do dinheiro. Quando um dos dois acha que consegue viver sem o outro, a empresa entra em risco.

Já vi áreas comerciais prometerem o céu ao cliente – prazo de 90 dias, preço de custo, entrega “ontem”, mas sem consultar quem cuida do caixa. Resultado? Venda linda no papel, estoque parado, fornecedor cobrando na porta e banco negando prorrogação porque o fluxo quebrou. Do outro lado, já vi financeiro tão conservador que travava qualquer venda um pouco fora da curva, matando oportunidades que teriam alavancado o ano inteiro. Os dois extremos são um veneno para o negócio.

Em estruturas saudáveis, a tesouraria (o coração do financeiro) conversa diariamente com o comercial. A tesouraria estratégica decide onde aplicar, quando captar, como proteger o caixa. A tesouraria operacional, que inclui contas a pagar e receber, garante que o dinheiro do cliente entre na data certa e saia para o fornecedor na hora combinada. O comercial, entra na roda para entregar previsibilidade: “forecast” decente, contrato bem redigido, cliente que paga em dia.

A lição para quem lidera é simples: pare de tratar comercial e financeiro como ilhas. Faça eles sentarem na mesma mesa toda semana. O comercial precisa entender que prazo longo custa dinheiro real. O financeiro precisa entender que, sem venda, não tem caixa para gerir. Os dois juntos constroem a raiz grossa que segura tempestades.

Ao final, a empresa mais inovadora do mundo quebra, se vender muito e receber pouco e também quebra se proteger tanto o caixa, a ponto de parar de vender. Equilíbrio é a palavra. Respeito mútuo, comercial e financeiro, é o caminho.

Cuide da raiz.

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