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ERNANI BUCHMANN CABECA hojesc

Vá e venha pela Penha

Houve época em que se viajava de ônibus para São Paulo com conforto e facilidade. O movimento na Régis Bittencourt era civilizado, garantindo viagens seguras. À noite os ônibus saíam da Rodoferroviária a cada 15 ou 30 minutos, entre os comuns, semi-leitos e leitos. Nesses últimos havia serviço de bordo, com distribuição de caixinhas com sanduíche, chocolate e refrigerante. Os motoristas apresentavam-se de camisas engomadas, cumprimentando os passageiros junto à porta. Um luxo.

Na volta a rotina era semelhante. A Penha era a empresa preferida, mas a Pluma, concorrente que também fazia viagens até Buenos Aires, tinha seu mercado. O slogan da Penha era “vá e venha pela Penha”, nos ônibus reluzentes que a publicidade anunciava como “tapete mágico”.

A viagem incluía parada em Registro, no Petropen, e chegada no Terminal do Tietê, mas isso depois. Antes o fim do percurso se dava na velha Rodoviária, ao lado da Estação da Luz e, depois da sua demolição, em uma esquina mequetrefe no bairro de Pinheiros.

Viajei dezenas de vezes pela Penha. Em algumas delas com o privilégio de conhecer o motorista, tal a minha assiduidade. O melhor deles, Seu Luiz, permitia que eu viajasse no “Jesus me chama”, o banco dianteiro ao seu lado, de onde ouvia as histórias saborosas de viagens anteriores. Anos mais tarde, perguntei a outro motorista sobre meu antigo parceiro. Tinha sido aposentado por alcoolismo. A empresa descobriu que nas paradas no Petropen ele sempre tomava “chá”. Em termos, porque o líquido era conhaque.

Certa noite, voltando do nordeste, desci em Congonhas à noite e fui para Pinheiros. Comprei passagem em um ônibus comum, o chamado “toco duro”. Os passageiros lotaram o busão até sobrar apenas a poltrona da minha janela. Já antecipando uma viagem em dois assentos, fiquei perplexo quando entrou um sujeito enorme, um lutador de sumô, vestindo terno preto e gravata. Ajeitou a maleta no espaço superior para sentar na poltrona dele e na metade da minha. Eu era magro, mas não era meia pessoa.

A viagem seria difícil. O que eu não imaginava era que o monstro exalasse o cheiro azedo de quem estava há uns três dias com a mesma roupa. Dobrei a dificuldade daquele percurso.

O infeliz começou a dormir assim que o ônibus saiu. Então, já ali por Embu ou Itapecerica, escutei seu ronco ritmado e tripliquei o sofrimento da madrugada.

Mal sabia eu que haveria outro agravante. Não tenho ideia de qual teria sido seu jantar, mas o aroma, já fermentado e procurando oxigênio, entrou em cena. Eram as tripas se retorcendo, a causar uma revolução intestina. A cada “prrrrrr”, ele grunhia um “desculpe”, para voltar em seguida aos roncos e aos torpedos.

Viajei espremido, com inveja de outro passageiro dormindo folgado no “Jesus me chama”. Na chegada em Curitiba ainda fui obrigado a suportar o olhar atravessado dos vizinhos.

Nessas situações ninguém sabe quem pode ser o porcalhão.

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