Há algo interessante na maneira como diferentes culturas se relacionam com o chá. Em viagens por Paris, Londres, Barcelona e Buenos Aires, chamou minha atenção encontrar lojas dedicadas a chás e tisanas com o cuidado e a sofisticação que costumamos associar a uma joalheria: folhas selecionadas, origens identificadas, diferentes colheitas e aromas cuidadosamente apresentados. Mais do que uma bebida, o chá é tratado como produto de valor, história, tradição e ritual.
Esse prestígio contrasta com o lugar que a bebida ocupa por aqui. No Brasil, a procura ainda é movida sobretudo pelo uso medicinal. A camomila é a erva mais lembrada para acalmar e favorecer o sono, enquanto o boldo e a hortelã são preferidos para aliviar a má digestão. O hábito tem valor, mas mostra apenas uma pequena parte desse universo, e o caminho para conhecer o restante começa por entender a diferença entre chás e tisanas.
Chá é aquele produzido a partir da Camellia sinensis, uma planta que, por diferentes métodos de cultivo e processamento, origina o chá verde, branco, amarelo, oolong, preto e os chamados chás escuros, como o pu-erh, além do matcha. Já as infusões preparadas com camomila, erva-doce, hortelã, capim-limão e outras plantas são chamadas de tisanas. Embora façam parte do mesmo universo de consumo, possuem origens e características diferentes.
Essa seleção aproxima o chá de produtos que já aprendemos a valorizar, como vinhos, cafés e chocolates. Uma mesma planta pode produzir experiências diferentes dependendo de onde foi produzida e de como foi processada. Por isso, falar de chá também é falar de agricultura, cultura, gastronomia e do trabalho de pessoas que muitas vezes passam despercebidas antes que a bebida chegue à nossa mesa.
O Brasil tem muito mais a oferecer nesse universo do que imaginamos. No Vale do Ribeira, em São Paulo, a Camellia sinensis é cultivada há décadas, em uma história relacionada à imigração japonesa e à formação de uma tradição brasileira de produção de chá. A região abriga produtores que oferecem ao consumidor uma possibilidade ainda pouco explorada: conhecer chás produzidos em território nacional.
Já quando olhamos para o Sul, encontramos outra riqueza que faz parte da nossa identidade. A erva-mate é uma planta de enorme importância cultural e econômica para a região, e o chimarrão demonstra que o brasileiro conhece o ritual de preparar, compartilhar e apreciar uma infusão. Temos uma cultura própria em torno da erva-mate, mas ainda podemos ampliar esse repertório e reconhecer outras plantas e formas de consumo com o mesmo interesse.
Ampliar o olhar significa também valorizar o que se coloca na xícara, e isso começa pela qualidade e pela orientação. Cada erva tem seu tempo de infusão e sua temperatura ideal, e respeitar esses detalhes preserva o sabor e a qualidade. Por isso, vale preferir ervas a granel armazenadas em recipiente adequado e de boa procedência, aos saquinhos industrializados, que impedem de enxergar o que está sendo consumido, costumam trazer material muito triturado e, em alguns casos, são feitos de fibras plásticas que liberam partículas na água quente.
Uma xícara de chá deve ser valorizada, pois reúne história, tradição, ciência, ritual e trabalho humano. Quem prova com atenção costuma descobrir que, depois do primeiro gole, há muito mais para explorar.
Para quem deseja se aprofundar no universo dos chás e das tisanas, o Instituto Chá oferece cursos sobre erva-mate, Tea Blending, voltado à criação de blends de ervas, e formação de Sommelier de Chás, com foco na Camellia sinensis.
Instituto Chá
institutocha.com.br
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