O ano de 2026 chega com anúncio de ondas gigantes, inundação de cidades, tempestades, Estados Unidos invadindo a Venezuela. Me pego pensando sobre a importância da arte diante de tal cenário. Quem viveu em país em guerra diz que as guerras são localizadas e que, no mais, a vida continua, quase normal. Então, fica parecendo que, o azar é de quem está no lugar errado, na hora errada – coisas do destino? Isso me leva ao assunto que discutimos, dias atrás, sobre o livre arbítrio e o peso da responsabilidade de cada um perante as suas escolhas versus a importância do DNA e fatores hereditários. Não nos esqueçamos do adolescente que, indignado, se escusa dizendo não ter pedido para nascer.
Fato é que estamos todos aqui, por gosto ou não, por escolha ou não. Em Mateus 25:14-30, na parábola dos talentos, é dito que os dons recebidos, mesmo que de forma desigual, devem ser desenvolvidos para o próprio bem e o bem de todos, pois sobre eles seremos cobrados. Quando penso nisso, olhando para trás, sendo que já vivi a maior parte da minha vida, percebo o quanto essas questões influenciaram as minhas escolhas. Foi pensando no quão sortudos são aqueles que conseguem descobrir seus talentos, podendo assim realizá-los – enquanto tantos passam pela vida sem saber a que foram destinados – que, passo a passo, fui construindo os meus caminhos.

Desde criança levei esse assunto muito a sério, sabe-se lá por quê. Coisas do DNA? Ouvindo que a quem foi dado mais, maiores seriam as responsabilidades? Achava que esse era o meu caso. Talvez por ter tido bons pais, estudado em uma boa escola, ter tido oportunidades, imbui-me da vontade de compartilhar e, provavelmente, da vontade de ensinar. No Pró-Criar, que aqui já comentei, a meta era o desenvolvimento da criança por meio da arte. Não visava que ela viesse a se tornar artista e sim que, através do seu enriquecimento interior, proveniente das múltiplas experiências, passando por diversas atividades criativas – sob a orientação de vários artistas e profissionais que se alternavam mensalmente –, pudesse se descobrir capaz, livre, para buscar seu próprio destino.
A arte, esse elemento que é fonte de transformação, que ao mesmo tempo que chama a atenção e coloca diante do olhar desatento do espectador a realidade travestida de beleza ou de horror, fixa o tempo, o momento daquela existência, daquele lugar, seja de forma mais realista ou da capacidade do artista de transformar tudo no sonho mais surreal como o fizeram Hieronymus Bosch (1450-1516) ou Kathe Kollvitz (1867-1945).

À arte e ao artista, desde os registros mais antigos gravados na pedra pelos primeiros humanos, cabe registrar e contar as histórias dos corpos e das almas pelos caminhos que traçam nesse planeta, sejam eles escolhidos e guiados pelos talentos recebidos, ou gerados ao acaso, tal qual o semeador que atira suas sementes em terrenos diversos, só descobrindo o resultado de seu esforço bem mais tarde, na hora da colheita.
No caminho que, este ano, estamos iniciando, desejo a todos a benção de descobrir os talentos e a felicidade de podermos ser fiéis e tenazes no desenvolvimento das possibilidades que nos foram confiadas. Que de forma particular, cada um possa contribuir para a paz e o equilíbrio necessário à sobrevivência desse lindo e pequeno planeta que nos foi legado como um dom de beleza, riqueza e diversidade. Que nos aperfeiçoemos na capacidade de compartilhar de forma a podermos, mais e melhor, desfrutar com mais igualdade, dignidade e responsabilidade dos bens a nós oferecidos.
(Ilustração de abertura: “O Concerto no Ovo”-Hieronymus Bosch (1450-1516) – óleo sobre tela 126,5×108 cm – pintado entre 1475 e 1480 – acervo do Palácio das Belas Artes de Lille-França.)
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