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marcus gomes

Um filme cômico e antropofágico

filme

Está disponível no Youtube e, talvez, no streaming uma produção Z de Hollywood que, há exatos 20 anos, foi considerada um crime de lesa-pátria. Me refiro a ‘Turistas’, trash movie rodado em Ubatuba, cidade do litoral de São Paulo

Antes o filme tivesse sido tratado como uma porcaria que provoca o riso involuntário. O problema é que tocou no lado sensível dessa gente bronzeada que quer mostrar o seu valor. Na época, as redes sociais eram incipientes e quase inexpressivas, mas isso não impediu o transbordo de protestos na internet.

Ok, o filme tem um plot indigente: jovens turistas americanos, loiros e bem nutridos, se esbaldam com caipirinha, praia e visões paradisíacas. Até serem sequestrados e levados para o meio da selva – que, no filme, divide espaço com a metrópole carioca. Resultado: acordam sem fígado, sem baço, sem rim e, claro, sem dinheiro e cartões de crédito.

É o clichê do clichê: os brasileiros falam espanhol, as mulheres evocam Carmem Miranda, com bananas e melancias equilibradas no topo da cabeça, e a capital do país, se não me escapa, é Buenos Aires.

A Disney é aqui

A grande sacada está em um fictício site de nome ‘Paradise Brazil’ que, mostrado no filme, traz informações turísticas do país que não deveriam perder para o Mickey Mouse e a Disneylândia. A ação do PCC nas capitais, o tráfico sexual, a corrupção, etc etc. O problema do filme é que ele exagera na dose da venda de órgãos humanos e em uma suposta produção nacional de ‘snuff movies’ – longas com cenas de assassinatos reais.

À época, o protesto na internet estava relacionado à imagem do Brasil ‘lá fora’. Bobagem. Sempre estivemos mais sujos do que pau de galinheiro. Ou como explicar os escândalos financeiros, os índices de criminalidade, o abismo da desigualdade social, a miséria galopante etc etc.

Ah sim, a imagem ‘lá fora’. Pois então tratemos de boicotar as novelas da Globo. Ou gente feliz, dentada, vendendo saúde e samba no pé em uma comunidade colorida não é uma nota de 30 da realidade?

Tudo pode acontecer

Ao que parece, a menção de que brasileiros seriam adeptos do canibalismo foi o que pegou mais. Ora, mas faz parte da nossa história. Em certo dia, há muitos anos, comemos o Bispo Sardinha no almoço e o coroinha na sobremesa. Hoje tudo isso seria apenas uma família poliafetiva.

Claro, os ianques não sabem bulhufas do Brasil. E isso não mudou. Salva-se no besteirol do diretor John Stockwell (quem?) uma frase pinçada do trailer. ‘Em um país onde tudo é possível, qualquer coisa pode acontecer”. Pensou no governo Lula de agora e de antes? Não é mera coincidência.

A propósito: comenta-se que o roteiro original de “Turistas” era ainda mais imaginativo. Previa que os tais traficantes de órgãos iriam atacar em Brasília, extraindo cérebros de políticos. O estúdio Fox recusou a ideia. Seria inverossímil demais.

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