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marcus gomes

Toninho Vaz merecia muito mais

toninho vaz

Autor da biografia de Paulo Leminski (‘O Bandido que Sabia Latim’), Antônio Carlos Martins Vaz, o Toninho Vaz, morreu no mês passado, aos 78 anos, sem um obituário para chamar de seu. Escritor, editor de texto do Jornal Nacional e da CBS americana, chefe de redação do SBT, repórter, roteirista, a vida de Vaz resumiu-se a uma breve nota de jornal. Ancelmo Gois publicou textinho em ‘O Globo’. O site G1 resumiu mal e porcamente sua trajetória profissional. Amigos foram às redes sociais para lamentos breves (brevíssimos). No mais, o silêncio foi constrangedor.

Não se disse a causa de sua morte, tampouco se era casado ou tinha filhos. Pois era. Com Maria Emília (a Naná) e tinha dois filhos: Rodrigo e Eduardo. Um deles vereador em Indaiatuba, cidade do interior de São Paulo.

Se Ruy Castro ganhou assento na Academia Brasileira de Letras por escrever biografias de gente que nasceu e viveu no Rio de Janeiro – ele é um mineiro deslumbrado –, Vaz foi muito além. Não só a sua lista de biografados é eclética, como também a sua própria história. Quando faleceu, em 21 de abril, vítima de complicações da diabetes com origem em um ferimento no pé, ele se dedicava a contar suas aventuras em relatos diários postados na internet.

Na década de 1970, Vaz era jornalista em Curitiba, com passagens pelo Diário do Paraná e Diário da Tarde (do grupo Gazeta do Povo). Quando não estava trabalhando, navegava com Leminski em bebedeiras homéricas. Quando sentiu que a coisa estava saindo de controle, ele pegou o primeiro ônibus para o Rio. Àquela altura foi morar no icônico Solar da Fossa, que depois seria tema de um de seus livros, porque Curitiba, a fria, se tornara também o templo da melancolia, do desamor e da tragédia do alcoolismo.

Sugestão de Alice Ruiz

Foi na capital fluminense que Vaz enveredou pelas biografias. A de Leminski conta uma história à parte. Alice Ruiz, a mulher do poeta, foi quem lhe sugeriu a ideia durante caminhada na praia. ‘Você é única pessoa capaz de fazer isso’, ela teria lhe dito.

E ele levou a sério. Redigiu um sumário, especificando cada um dos capítulos, e o levou à editora Record. Aprovado o projeto, ele passou a fazer a ponte Rio-Curitiba nos fins de semana, cumprindo um roteiro de entrevistas pré-agendadas. Assim se fez o livro.

Lançada em 2001, a biografia ‘O Bandido Que Sabia Latim’ mostrou que Vaz fora fundo em sua investigação. Ele não só relatou o suicídio de Pedro Leminski, único irmão do poeta, que se enforcou com uma corda de náilon em um quarto de pensão, como revelou que Leminski, o Paulo, era pai de um menino que nascera sob as sombras de uma suposta infidelidade.

A história agora ganhou outras proporções porque Paulo Leminski Neto veio a público recentemente, apresentando-se como herdeiro legítimo do poeta. Apesar da semelhança indiscutível – ele também exibe óculos de lentes grossas e bigode vasto – há um teste de DNA no caminho que ele se recusa a fazer.

Pra mim chega

Vaz conciliou a vida de jornalista com a de biógrafo ao longo da vida. Escreveu sobre Torquato Neto, que deixou bilhete dizendo ‘Pra mim chega’, antes de abrir o gás, Santa Edwiges, Luiz Severiano Ribeiro, dono de salas de cinema, Luiz Melodia e Zé Rodrix, cuja edição pela Olhares, ao fim e ao cabo, não o deixou satisfeito. Os livros, aos poucos, estão ganhando novas impressões pela Tordesilhas, selo da Alta Books.

É de conhecimento geral que Vaz enfrentou uma guerra jurídica com Alice Ruiz, depois que ela moveu mundos e fundos para tirar a biografia de Leminski de circulação.

Aparentemente porque desaprovou o relato sobre a morte trágica de Pedro, mas não foi só isso. Havia questões pecuniárias escondidas sob o manto da indignidade.

A filha secreta

Alice julgava ter direitos autorais a receber. Os mesmos que Roberto Carlos reclamaria, alguns anos antes, ao ver sua vida devassada no livro do historiador Paulo Cesar de Araújo.

Ironicamente, ‘Roberto Carlos em Detalhes’ ganhou cópias piratas e continua sendo uma das biografias mais baixadas na internet. Com todos aqueles ‘detalhes’ arrepiantes da perna que se foi sob os trilhos.

Em 2018, Toninho Vaz me fez uma confidência durante entrevista gravada. A seu pedido, a omiti. Creio que é hora de revelar. Após o lançamento de ‘O Bandido Que Sabia Latim’, Vaz teve um caso breve com uma jovem 20 anos mais nova, empolgada com o fato de o jornalista ser o autor da biografia de seu poeta predileto.

Dessa relação nasceu uma menina, depois reconhecida por Vaz. Claro que ele foi obrigado a contar a Naná, mas essa confissão teve consequências profundas e amargas. O escritor nunca se perdoou. Por isso, o segredo. Até agora.

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