First and Last and Always é um dos pilares do gothic rock dos anos 1980. Mais do que um simples álbum de estreia da banda The Sisters of Mercy, ele estabelece uma estética sonora. Lançado em março de 1985, constrói um universo denso, noturno e hipnótico, apoiado em guitarras saturadas de pedais, linhas de baixo dominantes e vocais cavernosos. Formada por Andrew Eldritch (vocal), Craig Adams (baixo), Wayne Hussey (guitarra e teclados), Gary Marx (guitarra) e a presença mecânica da bateria eletrônica Doktor Avalanche, elemento central da identidade do grupo. A produção é de David M. Allen.

Black Planet tem um riff circular, repetitivo e envolto em efeitos de modulação cria uma sensação de deslocamento contínuo. O baixo atua como força gravitacional, mantendo a música ancorada enquanto as guitarras orbitam ao redor. Andrew Eldritch canta em registro profundo e distante, quase como um narrador apocalíptico. A bateria eletrônica é seca e marcial, reforçando a atmosfera de mundo em colapso. É uma introdução poderosa e imersiva.
Walk Away é mais direta e rítmica. A faixa se apoia num groove constante, quase dançante, mas sem perder o peso sombrio. O riff é simples, porém eficiente, e a repetição cria hipnose. A voz de Eldritch alterna entre frieza e melancolia contida, refletindo temas de ruptura e afastamento emocional. A música demonstra como a banda transforma estruturas pop em algo obscuro e ameaçador.
Em No Time To Cry o andamento desacelera e o tom se torna mais introspectivo. As guitarras ganham mais espaço atmosférico, com longos sustains e camadas sobrepostas. A bateria programada é minimalista, quase ritualística. Eldritch soa resignado, cantando sobre perda e a incapacidade de processar emoções. É uma faixa que respira solidão e abandono.
A Rock And A Hard Place é uma das canções mais agressivas do álbum. O riff principal é seco e insistente, com pouco espaço para respiro. O baixo pulsa de forma ameaçadora, enquanto a bateria eletrônica avança com precisão implacável. A letra fala de dilemas sem saída, e a interpretação vocal é ríspida.
Um dos pontos altos do álbum. Marian cresce lentamente, sustentada por um riff hipnótico e uma batida constante que lembra um mantra. As guitarras criam camadas etéreas, enquanto o baixo mantém uma tensão permanente. A performance vocal é mais dramática e emotiva, evocando devoção, obsessão e espiritualidade distorcida.
First And Last And Always, a faixa-título, é mais introspectiva e nebulosa. O arranjo é menos direto, com guitarras envoltas em efeitos e uma sensação de espaço vazio. A bateria parece distante, como ecoando em um grande salão. Liricamente, a música sugere ciclos, promessas quebradas e a inevitabilidade do retorno à dor. Eldritch canta com um cansaço existencial.
Possession tem andamento mais acelerado. A letra trata de controle emocional e dependência, enquanto a música mantém uma tensão constante entre movimento e contenção. O uso de efeitos cria uma textura densa, quase claustrofóbica.
Nine While Nine é uma das faixas mais ameaçadoras do álbum. O riff é sombrio e repetitivo, quase obsessivo, enquanto a bateria mecânica reforça o clima de perseguição. Eldritch canta de forma distante, quase indiferente, o que aumenta a sensação de alienação. A música avança como uma marcha noturna.
Amphetamine Logic, curta e nervosa, traz um ritmo mais acelerado e uma sensação de paranoia. As guitarras são cortantes, e o baixo guia a canção. A letra sugere ansiedade, vício e estados alterados, refletidos na execução tensa e sem descanso.
Some Kind Of Stranger encerra o álbum de forma lenta e sombria. A canção cresce gradualmente, com guitarras longas e espaçadas e um baixo profundo e melancólico. A bateria mantém um pulso constante, quase fúnebre. Eldritch canta com um tom introspectivo. É um encerramento contemplativo e elegante.
First And Last And Always não é apenas um disco de estreia. É uma declaração estética completa. Tecnicamente coeso, emocionalmente pesado e sonoramente marcante, ele define o que seria o gothic rock em sua forma mais pura. A combinação de repetição hipnótica, minimalismo eletrônico e intensidade emocional faz do álbum uma obra sombria. O rock também pode ser sombrio. E ainda é o bom e velho rock’n’roll.
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