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MARCUS VIDAL CABECA hojesc

The Rolling Stones: o início dos Hit Makers

Seu primeiro álbum, lançado em 17 de abril de 1964, autointitulado, na versão britânica, e com o título England’s Newest Hit Makers, na versão norte-americana, lançado uma semana depois, fez do The Rolling Stones uma das bandas com uma das mais significativas em álbum de estreia. O álbum tem apenas uma composição da dupla Jagger e Richards. A produção ficou a cargo de Eric Easton e Andrew Loog Oldham. Aqui comentarei a versão norte-americana.

Englands Newest Hit Makers rolling stones

Not Fade Away é a abertura marcante com o clássico ritmo “Bo Diddley beat”, baseado em padrão sincopado repetitivo. A percussão é minimalista, quase tribal, e a guitarra trabalha acordes simples e repetitivos. O vocal de Jagger é relaxado, mas carregado de atitude. A canção estabelece imediatamente a identidade da banda: groove hipnótico e simplicidade rítmica transformada em força.

 

 

Route 66 aparece numa versão mais rápida e elétrica do clássico. A guitarra de Richards conduz com riffs diretos, enquanto o piano, tocando discretamente ao fundo, adiciona preenchimento harmônico. A interpretação vocal é mais solta, com Jagger explorando fraseado bluesy.

I Just Want To Make Love To You é baseada no blues de Willie Dixon. Apresenta groove arrastado e sensual. O riff é repetitivo e sustentado por guitarra rítmica sólida. Brian Jones adiciona slide guitar, criando textura característica. Jagger canta com intensidade e atitude provocativa, antecipando seu estilo performático.

Honest I Do é uma das faixas mais contidas. A estrutura é simples, com andamento lento e foco na interpretação.A harmônica ganha destaque, reforçando o caráter blues. A banda reduz a densidade instrumental, criando espaço para o vocal expressivo.

 

 

Now I’ve Got A Witness é instrumental e curta, centrada no piano e na interação da banda. Funciona como interlúdio, mostrando influência do rhythm & blues instrumental. A execução é simples, mas revela entrosamento da banda.

Little By Little é uma das primeiras composições associadas à dupla Jagger/Richards, com colaboração de Brian Jones. O groove é arrastado, com forte influência do blues de Chicago. A harmônica é protagonista, e a estrutura é baseada em repetição cíclica. A canção reforça a transição da banda de intérprete para compositora.

I’m A King Bee é um blues lento e pesado. A guitarra trabalha frases espaçadas, enquanto o baixo sustenta a base com simplicidade. O vocal de Jagger é mais teatral, explorando pausas e ênfase nas palavras. A canção destaca a capacidade da banda de interpretar blues de forma convincente.

Carol é um dos momentos mais energéticos do álbum. Baseada em Chuck Berry, a cançãoa apresenta riff rápido e direto. A guitarra de Richards assume protagonismo, com ritmo constante e ataque firme. A bateria acompanha com andamento acelerado e simples.

 

 

Tell Me é a primeira balada mais estruturada da banda. Diferente das outras faixas, apresenta construção mais pop, com foco melódico. A guitarra é mais suave, e o vocal de Jagger explora emoção em vez de agressividade.

Can I Get A Witness tem energia elevada e forte influência do soul. A bateria é mais ativa, com condução dinâmica. O vocal é mais intenso, quase gritante em alguns momentos. A canção reforça a versatilidade da banda dentro do R&B.

You Can Make It If You Try tem groove leve e andamento moderado. A estrutura é simples, com refrão repetitivo e fácil assimilação. A interpretação é mais descontraída porém com muita energia.

Walking The Dog é um dos momentos mais interessantes do álbum por evidenciar claramente a capacidade da banda de transformar um rhythm & blues relativamente simples em algo carregado de personalidade. A canção é construída sobre um groove direto e repetitivo, sustentado por um padrão rítmico firme da bateria e um baixo discreto, mas funcional. Excelente encerramento.

 

 

England’s Newest Hit Makers captura o The Rolling Stones em sua forma mais crua e essencial. Ainda longe da sofisticação composicional que viria depois, o álbum é um retrato fiel de uma banda profundamente influenciada pelo blues e pelo R&B americano. Tecnicamente simples, mas cheio de personalidade, o álbum mostra como groove, atitude e interpretação podem compensar a ausência de complexidade estrutural. É o ponto de partida de uma das trajetórias mais importantes da história do rock’n’roll. Do bom e velho rock’n’roll.

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