Quero começar fazendo uma pergunta que talvez pareça estranha em um momento em que todo mundo está falando sobre Inteligência Artificial: qual problema você está tentando resolver com a tecnologia?
Não qual ferramenta sua empresa pretende contratar, não qual IA sua equipe começou a utilizar, não qual processo vocês querem automatizar.
Qual é o problema? Parece uma pergunta óbvia.
Mas talvez seja justamente por não dedicarmos tempo suficiente a ela que tantas empresas estejam utilizando tecnologias extraordinárias para resolver problemas que nunca foram realmente compreendidos.
E existe um risco ainda maior: resolver muito bem o problema errado.
Você provavelmente já participou de alguma conversa assim.
• Precisamos usar Inteligência Artificial.
• Precisamos automatizar esse processo.
• Precisamos implementar uma nova plataforma.
• Precisamos fazer transformação digital.
Então começam as pesquisas, ferramentas são apresentadas, fornecedores são consultados, projetos são desenhados e orçamentos aparecem.
Mas, em algum momento dessa conversa, alguém perguntou:
O que exatamente estamos tentando resolver?
Essa pergunta deveria vir primeiro. Mas, muitas vezes, vem depois.
Estamos começando pela tecnologia e tentando encontrar um problema para encaixá-la.
Quando deveríamos fazer exatamente o contrário.
Essa talvez seja uma das confusões mais importantes que precisamos enfrentar neste momento. Adotar tecnologia não significa inovar.
Uma empresa pode utilizar Inteligência Artificial, automação, algoritmos, dashboards sofisticados e dezenas de plataformas digitais e continuar operando com a mesma lógica de anos atrás. Pode até ficar mais eficiente, mas eficiência e inovação não são necessariamente a mesma coisa.
Porque existe uma diferença enorme entre perguntar:
Como podemos fazer isso mais rápido? e perguntar: Ainda deveríamos estar fazendo isso?
A primeira pergunta busca eficiência. A segunda abre espaço para inovação.
O perigo de automatizar o problema
Imagine um processo burocrático, ele possui etapas demais, passa por pessoas demais, demora e gera retrabalho.
A primeira reação pode ser: Vamos automatizar.
E talvez a tecnologia consiga reduzir o tempo daquele processo pela metade.
Excelente!!
Mas e se algumas daquelas etapas simplesmente não precisassem existir?
Nesse caso, usamos uma tecnologia extremamente sofisticada para fazer mais rapidamente algo que já deveria ter sido questionado.
Automatizamos a burocracia e digitalizamos a ineficiência. E chamamos isso de inovação.
Percebe o risco?
Tecnologia aplicada ao problema errado não elimina desperdício. Muitas vezes, apenas acelera o desperdício.
É por isso que acredito cada vez mais que o melhor uso da tecnologia começa muito antes da tecnologia. Começa na capacidade humana de observar. De escutar. De questionar. De compreender contexto. De identificar a causa antes de atacar o sintoma.
É aqui que entra a consciência digital que tenho defendido nesta coluna.
Consciência digital não é saber utilizar todas as ferramentas disponíveis.
Isso seria praticamente impossível.
Consciência digital é desenvolver maturidade para perguntar:
Onde a tecnologia realmente pode gerar valor?
E também ter maturidade para reconhecer quando ela não é a resposta.
Se essas respostas ainda não estão claras, talvez não seja hora de procurar uma ferramenta.
Talvez seja hora de compreender melhor o problema.
Porque, em um mundo onde teremos tecnologias cada vez mais poderosas, a vantagem não estará apenas em quem tiver acesso a elas.
Estará em quem souber onde utilizá-las.
O futuro não será definido apenas pela qualidade das respostas que a tecnologia consegue produzir.
Será definido também pela qualidade dos problemas que nós, humanos, formos capazes de escolher resolver.
E talvez essa seja uma das formas mais conscientes de inovar.
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