Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os pesadelos do mundo. Entre eles, o que nos ronda: a eleição presidencial. Que não me leiam. Leiam os outros. Sou o cavalo do bandido ou, melhor, os rastros indeléveis que o quadrúpede deixou em seu caminho. E há uma ponta de orgulho nisso. Que vão ao diabo sem mim. Leiam aqueles que importam. Raios os partam. Os formadores de opinião, aqui, lá e além.
Na Folha, Donald Trump elogia o povo brasileiro e não se posiciona a favor de nenhum candidato. A colunista Dora Kramer se espanta com a sem-cerimônia com que Lula telefona para o ministro Flávio Dino, do STF, e o coloca em viva-voz no palanque eleitoral. Não há por que causar sobressalto. São companheiros de partido. O editorial do jornal diz que o Brasil vai pagar o preço do debate eleitoral indigente. Refere-se, por óbvio, à recusa de Lula de participar do enfrentamento com outros candidatos na Globo. Outro debate, outra ausência. Surpresa para zero pessoas. A cadeira vazia deveria ser a logomarca do petista. Ele só fala para a claque remunerada.
A brasilianista Wendy Hunter diz que as eleições deste ano revelam um cansaço da população em relação a Lula e ao PT. Pudera. Noves fora, serão seis mandatos — isso com o impeachment de Dilma já contabilizado. Diz mais: ela não acredita que uma eventual vitória de Flávio represente risco para a democracia brasileira. Além disso, Hunter sustenta que a crise no STF tem mais efeito sobre Lula do que sobre Flávio. Se não por Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Dias Toffoli, por Dino, que já mostrou a que veio. Em viva-voz.
A brasilianista é de uma clareza que dói. E essa seria uma excelente oportunidade de usar o termo diáfana, tão caro a Gabriel García Márquez. Mas não sou nada. Então vai de clareza mesmo. Segundo Hunter, não se pode associar, de forma estereotipada, o antipetismo a uma parcela branca, rica e moradora das regiões Sul e Sudeste. Quem não vota no petista nem que a vaca tussa — e são 45% dos eleitores — é um conjunto heterogêneo. Muitos pertencem a minorias. O melhor trecho da entrevista, porém, trata do Bolsa Família. Hunter assinala que programas sociais de transferência direta de renda não são mais novidade: “Os norte-americanos não acordam todos os dias agradecendo ao Partido Democrata pela Previdência Social”.
O capítulo das bets merece destaque. Lula baixou uma Medida Provisória, na semana passada, com efeito de terra arrasada. Proibiu-as todas em território nacional. Não sou nada, nunca serei nada. À parte isso, posso jogar no Tigrinho. Um repórter da revista Veja fez isso. Apostou 20 reais e, em menos de meia hora, perdeu 27 centavos. Até a última contagem, 700 bets ilegais foram criadas depois da proibição anunciada pelo governo. Lula finge que manda, as bets fingem que obedecem. Entre a eficácia e a eficiência, resta a tunga. A mesma que o governo, em sua ânsia arrecadatória, aplicou ao regulamentar as casas de apostas em troca de outorgas de R$ 30 milhões. Com 85 concessões autorizadas, são R$ 2,55 bilhões no caixa, e o governo já declarou que não devolverá o dinheiro.
Bets são uma praga, mas foram autorizadas num passe de mágica. Lula e sua equipe econômica ignoraram os alertas, focando apenas na arrecadação. O resultado é o que se vê: caos regulatório, risco de bilhões em indenizações, objetivos fiscais que colocaram a receita acima dos danos à saúde pública e críticas à medida que teve motivação eleitoral, sem resolver a raiz do vício. Um interlocutor desautorizado argumenta que sites de apostas são tão viciantes quanto o crack. Que eu saiba, o crack não foi legalizado pelo governo.
A Folha crê que em poucas semanas todo o ridículo alarido em torno da padroeira do Brasil estará esquecido. Sim, aquela ficção que mobilizou até ministros do STF. À parte isso, sou apenas o cocô do cavalo do bandido. Nossa Senhora, me salve.
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