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ernani

Sons da noite e mais

noite

As noites antigas na cidade pequena traziam o silêncio. Era o momento das pessoas se fecharem no casulo, ouvirem o Repórter Esso, a novela e colocarem as crianças para dormir.

Aquele silêncio (o lugar comum exige que um silêncio completo seja sepulcral), pois o silêncio sepulcral era quebrado pelo início da madrugada. Ouvia-se o comando aos cavalos, ôôô!, um pequeno relinchar e latas batiam. Era o carro da meia-noite, coche preto, coletor de fezes a recolher os dejetos das casas desprovidas de esgotos. O carroceiro e seu auxiliar despejavam os conteúdos na traseira do carro, devolviam as latas às casinhas e seguiam em frente. Na cama, de onde o menino curioso ouvia cada som da bateria nauseabunda, os cheiros não chegavam. Já as ruas, fediam.

Cinco horas mais tarde, outro ô,ô,ô fazia mais um cavalo estancar. Era o leiteiro, a trocar as duas garrafas de vidro vazias e lavadas, colocadas ao pé da porta da frente, por outras com o leite pasteurizado, produzido pela usina da Rua Otto Boehm, sinal do progresso vivido pela cidade. A carroça seguia seu trajeto, feito de paradas seguidas, acompanhadas pelos ouvidos atentos do pequeno cliente recém-acordado.

Meia hora mais tarde, a charrete do pão, com o rangido do portão a denunciar o trajeto do padeiro. Pegava no trinco da porta a sacola de pão ali pendurada, tecida em pano e bordada com algum motivo panificante pela mãe, e a enchia de pães d’água. A charrete trazia na parte de trás uma portinhola, local de armazenamento daqueles pães que matariam a fome matinal da família.

O dia já iniciava seu expediente e os cavalos ruminavam sua refeição em algum pasto quando parava a camionete do gelo. Duas vezes por semana ele vinha cumprir seu papel, na pequena geladeira sem energia elétrica. As barras, presas em garfos de duas garras, já desciam pingando, para alegria de meus irmãos gêmeos, rápidos em andar junto ao geleiro para lamber aquelas vigas transparentes, sujando de quebra os pijamas.

A cidade pequena virou metrópole, os sons já não são os mesmos. Os carros da meia-noite foram abolidos há décadas, o leite já não é entregue em casa (além de possuir muitos subgêneros), os pães são preparados em várias matizes e as pequenas geladeiras tipo guarda-comida sumiram na poeira dos tempos.

Apenas os cheiros ficaram na memória. Do pior ao melhor, eles continuam a lembrar que um dia o vetusto cronista já foi menino insone.

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