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maria do rocio vaz cabeca

Só entra menina

so entra menina

Curitiba, dezoito horas. Sou motorista de quatro colegiais que tagarelam sem parar, em meio ao caos de ruas congestionadas. Na lotação só entra menina.

Vamos logo! Minha filha e três amigas não podem perder a aula – nem o professor – de Filosofia. A vida tem muitos sentidos, ainda mais nessa idade.

A conversa rola solta, entre risadas e confidências. Fico sabendo das últimas fofocas, das traições entre “melhores amigas”, do drama da fila da cantina, da prova difícil de matemática, da nota injusta… e, também, do novo corte de cabelo do menino mais bonito da sala. “Ele olhou para mim.” “Ou para mim?”

Como “tia”, título conquistado, que sente-se importante e responsável, dou meus palpites. Pergunto se estão com fome e no mesmo instante lhes ofereço pães de queijo. Mania insaciável, a minha, de ser mãe do mundo. Como escreveu Clarice Lispector, “era o meu amor apenas livre”. Eu só sei amar assim, alimentando até o que não falta.

E, nesses breves instantes, sou compensada por todos os desencantos do dia. Quanta inocência e leveza! São quinze os anos, infinitos os sonhos. Um frescor primaveril invade o meu espaço: elas são a promessa do novo que virá à luz.

Poderia vê-las apenas como Luluzinhas, mas não. Meu coração só imagina futuras estrelas, pegando carona em minha história. Subitamente percebo-me contagiada. Cintilante.

Nesse clima, a alegria que fulgura nos olhos delas me transporta ao universo colorido e saudoso de uma estudante do passado. Lembro-me da adolescente de cabelos castanhos e longos, que há muito perdi de vista. Até sinto sua presença entre nós. As garotas a convidam para brincar e ela aproveita. Não haveria tantas chances…

Entre risos e esquinas, o fim de tarde toma
o seu rumo. “Já? Chegamos! Peguem o casaco.” Despeço-me: carinhos e beijos. Elas saem. Prossigo. Sozinha. Outra vez.

A escuridão chega de mansinho, como o tempo que não se faz perceber. Peço aos céus, já pontilhado de esperanças luzentes, que as “minhas” meninas brilhem mais e mais, até ser dia perfeito.

Anoiteço, cheia de graça.

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