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ERNANI BUCHMANN CABECA hojesc

Seu nome era Barcímio

Barce para os amigos, Sicupa para a torcida do Atlético – ainda sem “h” – Barcímio Sicupira Júnior foi uma grande figura, craque nos gramados, contador de histórias e animador de todos os diversos grupos de que participava. Dizia que em uma pessoa chamada Barcímio apelido não pegava. Deixou um exército de amigos, depois de ter esgotado as sete vidas com que veio ao mundo, conforme o vaticínio de um dos seus médicos. Tinha 77 anos.

Nos anos 1960, o Botafogo costumava excursionar pela América Latina durante meses, já que o calendário era folgado. Usava o México ou o Peru como base e jogava todas as semanas entre os dois países.

O treinador era Geninho, não o ex-goleiro, mas o antigo jogador do próprio Botafogo. Em uma daquelas excursões, depois do jantar, Geninho perguntou ao grupo se alguém tinha recebido carta do Brasil. Rildo, com um envelope na mão, gritou:
– Sicupira recebeu carta do pai dele.
Nem o próprio Barcímio sabia, Rildo havia surrupiado a carta.
– E o que o pai dele conta de novidades da terra? perguntou o treinador.
Rildo empostou a voz e começou a ler, não o que estava escrito, mas o que ia inventando:
– Meu filho, tenho lido no Jornal dos Sports que você continua sendo escalado na ponta-direita. Diga para o burro do treinador que você é atacante de meio, não de ponta. Ele não entende nada de futebol, vive cometendo esses erros básicos. Torço por você com a 9. Um forte abraço do teu pai.
Todo mundo riu, até Geninho.
Então o Botafogo voltou ao Brasil, o Campeonato Carioca começou e uma tarde de clássico no Maracanã, contra o fluminense, Geninho escalou Sicupira de centroavante.
Primeiro tempo, Botafogo 2 x 0, dois gols de Sicupira. Na entrada do túnel, Geninho cumprimentou os jogadores um a um. Ao receber o abraço do técnico, Sicupira não perdoou:
– Viu só? Meu velho conhece!
-.-.-.-.-
Concentração do Atlético Paranaense. Uma roda de jogadores estava empenhada no baralho, comendo uns salgadinhos. Nisso apareceu o zagueiro Virgílio para peruar o jogo. Sicupira o convidou para participar:
– Senta aí, venha jogar cacheta, comer conosco.
O rude zagueirão aceitou o convite:
– Então vou comer um conosquinho desses.
-.-.-.-.-
Tarde de sábado ensolarado. Sicupira estava escalado para fazer um tubo* com o narrador Edgar Felipe, mas resolveu melhorar a jornada: pediu que a transmissão fosse na sua churrasqueira da sua casa, onde a emissora instalou os cabos e Barcímio tratou de assar linguiça.
Ocorre que ele tinha dois cachorros fila, aqueles com tamanho de cavalo. Com o aroma do churrasco, os cachorros ficaram indóceis. Enquanto Barcímio foi buscar alguma coisa na cozinha, os cachorros pularam a cerca. Um foi direto para a grelha atacar as linguiças e o outro subiu nas costas do narrador.
Quando Sicupira voltou, Edgar estava apoplético:
– Bola no ataque do Furacão, olha o cachorro, olha o cachorro, olha o cachorro, meu Deus do céu!
Ninguém entendeu nada. Mas os cachorros foram trancados e a jornada prosseguiu. Depois, Barcímio resumiu a situação:
– O cachorro nas costas do Edgar deu em nada. Mas o ataque às linguiças prejudicou muito a transmissão.
*Tubo é gíria de rádio e TV. Significa narrar um jogo assistindo à transmissão da televisão.

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