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marcus gomes

Ser preso é currículo

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Regozijai-vos. Não estamos afundados, como dantes, em uma inflação de 80% ao mês, de 1.000% ao ano. Afora isso, todo o mal está posto. Citemos a economia, por enquanto, para que não nos afete aquele que será eleito o “salvador da pátria” de ocasião; a “flor do Lácio”; o pai, o mestre, o senhor, o doutor honoris causa da nação. E acrescentemos, para não perder as bobagens recentes, Pelé e Jesus.

O sertanejo é, antes de tudo, um forte, escreveu Euclides da Cunha que, antes de tudo, era um traído e que, por ser também brasileiro, era, antes de tudo, um crente.

Porque os nacionais creem — de crer, de credo, de crédito, de crença. E quem crê piamente acredita eleger agora, não dantes, um presidente da República que é agora, não antes, um líder de seita — entendida ela como negócio, religião, partido, ideologia, finanças, economia, progresso, riqueza, bem-estar, educação, desenvolvimento, tecnologia, cultura, sexo, comida, bebidas fartas e enriquecimento ilícito.

Duas máximas do filósofo Ivan Lessa, porque cada país tem o filósofo que merece: 1ª) “De 15 em 15 anos, o brasileiro esquece o que aconteceu nos últimos 15 anos”; 2ª) “O brasileiro tem os pés bem firmes no chão. As mãos também”.

Por essa razão, a prisão é láurea. É currículo.

Se temos presidentes e ex-presidentes que habitam, habitaram ou deveriam habitar o xilindró, temos políticos de outros escalões que, mesmo com dinheiro nas meias e nas cuecas — estas transformadas em casas de câmbio —, são dignos de disputar um cargo, sem pruridos e com o devido óleo de peroba renovado. Ah, José Roberto Arruda, candidato ao governo do Distrito Federal — onde mais?

A urna eletrônica é inatacável até o momento em que não permite o voto de protesto. Indaguei, certa vez, a uma autoridade da Justiça Eleitoral como, então, votar no Macaco Tião. “Basta apertar 00”. Mas isso é voto nulo, não de revolta, de pilhéria, de chacota, de deboche. A saída foi votar e eleger o Tiririca. Está lá até hoje como um monumento ao Cacareco, outro ícone das manifestações de antanho, quando o voto era de papel.

O não voto se tornou a bandeira que se hasteia aqui e agora e que se hasteará em breve.

Ora, onde todo político (constante “x”) é corrupto (outra constante “x”) e a variável “y” não existe, solução não há. O que se tem é um argumento falso, segundo o qual todo político é corrupto, mas alguns são menos do que os outros.

Trata-se de um sofisma. Há políticos honestos que não se traduzem em exceção. E por serem honestos e (talvez) desconhecidos, são apontados em meio aos desonestos fanfarrões, num efeito em que se olha o todo sem atentar ao particular. Compreensível, dada a miséria civilizatória.

Aos temerosos, não há por que temer uma ditadura quando o presidencialismo de coalizão a substitui com louvor. Também não se deve esperar um tsunami de privatizações ou de estatizações em curso ou no porvir, porque o episódio da sucata chamada “Correios” é suficiente para satisfazer os dois lados.

Além desse horizonte, toda a crise existencial do político: “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todas as cadeias do mundo”.

Sorry, Fernando Pessoa.

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