
Fazer o quê? Eis Max Weber, o sociólogo alemão, autor do livro mais importante do século XX (A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo), discorrendo sobre a divisão do poder nas sociedades. É fato: as classes sociais são representadas por proprietários de terra, industriais, profissionais liberais, trabalhadores qualificados e, de outro lado, por trabalhadores não qualificados — estes, negativamente privilegiados.
Mas há aqueles que obtêm o reconhecimento social sem fazer força, que têm um nome a ‘zerar’, que obedecem a regras de pertencimento, que são julgados segundo o grupo ou estamento a que estão ligados, que obedecem a um código de honra e desprezam esse negócio de situação de classe condicionada por motivos puramente econômicos.
É chato, é coisa do Marx, é recalque intelectual.
Weber cita o exemplo dos descendentes das primeiras famílias da Virgínia, nos EUA. Para que ir tão longe? Basta dar uma esticada ao bairro da Barra Funda, em São Paulo. Lá você encontrará palmeirenses de nobre linhagem, cheios de status a dar e vender.
Eu mesmo, um Gomes. Não tenho ascendência italiana, não tenho familiares que torcem para o Palestra, mas revisto-me da melhor aristocracia que o dinheiro não pode comprar. Ora, chacoalho-me dos novos-ricos que desfilam por aí exibindo seu estrato social ao estilo amarfanhado chique: andrajosos, tronchas, claudicantes, soporíferos, amorfos, banais, corintianos.
Está nas escrituras: Coríntios 1, versículo 2. Eles não ganham nem biblicamente.
Questão de torcida
Não fui eu quem descobriu o Palmeiras, foi o Palmeiras quem me descobriu. Eu levando porrada, e eles, ‘campeões em tudo’. Sou um Marcus Gomes espiritual. Em outra vida, fui soldado romano no clássico leões x cristãos ou cristãos x leões — é sempre uma questão de torcida.
Meu pai, um sábio, sempre dizia: ‘Corintiano é um brasileiro com um agravante’. Raios, ele era santista de tantas derrotas. Eu seria palmeirense, uma condição estamental segundo Weber; porque porco, mas de corte nobre; porque Bola de Neve, mas na Revolução dos Bichos; porque famélico, mas nobiliárquico. Pendurado no ônibus, mas com élan, com escol. Jogado no porta-malas da lotação porque pirralho, remelento, porém exibindo altivez, bem falar, bem andar.
Quando comi meu primeiro pão com calabresa na porta do estádio — em Curitiba, pão com bife —, não foi qualquer sanduíche. Pedi pão branco sem miolo e com a rapinha da chapa quente. O segredo está na sujeira. Eis o condimento nobre, o toque do chef. Experimente fazer em casa. Não tem graça. Não tem sabor.
Torcida, só na geral, no tobogã do Pacaembu, porque numerada coberta é coisa de novo-rico, de subcelebridade do Big Brother, de pobre boquirroto posando de iPhone. Sou palmeirense weberiano. Se meu time é derrotado, eis o sociólogo compreensivo, neutro, empírico, objetivo em uma ciência subjetiva. Se sai vitorioso, sou um pássaro? Sou um avião? Não, o super-homem nietzschiano.
Quem nunca tomou chuva diluviana em um estádio de futebol não sabe o que é noblesse oblige. Eu sei.
Ah, os maledicentes. Certa professora de sociologia, nem lembro o nome, foi ao Morumbi ver a final do Brasileiro em 1999. Coisa de pobre. O jogo era Corinthians x Atlético-MG. Coisa de classe social, de trabalhador qualificado. Na saída, feliz, mas não livre — porque liberdade é coisa de Kant —, pegou uma kombi-lotação com guia turístico: ‘À esquerda, o Rio Pinheiros; à direita, o Tietê’. E a tribo corintiana cantou: ‘Eira, eira, eira… piscina do Palmeiras’.
Nem ligo. Continuo aqui, esbanjando nobreza. Batucando minha caixinha de fósforos enquanto o apocalipse não vem. Garçom, um chá preto e duas torradas. Tá bom, vai: dois pastel e um chopes.
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