Com 13 derrotas, 8 empates e apenas 10 vitórias em 32 jogos, além da sombra da Série B nos calcanhares, está na hora de o Coritiba apelar. Depois da derrota para o Grêmio em pleno Estádio Major Antônio Couto Pereira, não restou Greca sobre Greca. Não é só caso de benzedeira. Perder para o time de Renato Gaúcho foi a gota d’água.
Façam, torcedores e dirigentes, novena para Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, esconjurem Fernando Seabra, troquem o nome do clube para Ipacaratu do Bom Retorno, contratem qualquer holandês que estiver disponível no mercado.
Nada disso vai adiantar sem o auxílio luxuoso daquele que pode e sabe ajudar com uma simples canetada. Quem? O presidente reeleito. Foi só o petista vencer a eleição pela quarta vez nas sete que disputou — se não me perco nas contas — e o Corinthians, que deve R$ 3 bilhões na praça e acumula salários atrasados ad eternum, se apressou em mandar uma mensagem curta ao eleito, com o trecho esfuziante: “Viva a democracia do Brasil”. É infalível. Tiro e (não) queda. Poucas palavras. Três substantivos, um artigo definido e uma preposição. Pronto.
O Timão está próximo, muito próximo, de fechar um contrato de naming rights com a Caixa e, assim, saldar a dívida do estádio, o Itaquerão, nos próximos 15 anos. São R$ 40 milhões por ano durante esse período. Uma injeção de “ânimo” e tanto. O montante representa exatamente o valor da dívida, acrescido de juros e correção monetária: R$ 600 milhões. O contrato é uma aberração, mas e daí? É dinheiro público. Quem se importa? Se alguém perguntar, Lula dirá que faz parte do Desenrola Corinthians. Vale para pessoa física, vale para pessoa jurídica.
Claro que o acordo afronta o artigo 37 da Constituição. Aquele que trata do LIMPE, a sigla que resume os princípios basilares da administração pública. Vai vendo: Legalidade, Impessoalidade, Moralidade, Publicidade e Eficiência. Um contrato como o que o Corinthians está prestes a assinar com a Caixa fere a supremacia do interesse público e sugere indícios cristalinos de favorecimento a uma entidade privada que praticou crimes — enriquecimento ilícito entre eles. A SAF do Coritiba faria bem em gritar. Mas para quê? Deixa o homem trabalhar. Se a Caixa pretende bonificar o Corinthians, estenda o benefício também ao Coritiba e aos demais clubes, do Oiapoque a Marilena Chauí. É de malversação em malversação que se constrói uma eleição. E isso é bom. 64 milhões de eleitores aprovam.
Repare: Corinthians e Caixa assinaram um termo de confidencialidade, em Brasília, no dia 16 de outubro, com a presença de Guilherme Boulos, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República. A menos de dez dias do segundo turno, o aceno fez parte do pacotão de bondades de Lula, que bateu nos R$ 400 bilhões.
O Coritiba não vence uma partida no Brasileirão desde 31 de agosto. De lá para cá, foi ladeira abaixo. Empatou duas vezes e amargou derrotas em cinco ocasiões, duas delas humilhantes. Ainda assim, precisa apenas de uma vitória em seis jogos para escapar da degola. A régua, segundo os matemáticos, é mais baixa. Com tantos times disputando a parte de baixo da tabela — inclusive o Corinthians —, o número mágico deve girar em 42 pontos, e não nos 45 tradicionais. O Coxa tem 39. Se vencer o Vitória, em casa, no sábado, dorme na Série A. Se perder ou mesmo empatar, o destino é incerto.
Triste ironia que o Corinthians, ora no Z-4 com míseros 32 pontos, tenha uma Caixa para sustentá-lo em tempos de vacas magras. Com o Coritiba é diferente. Sem padrinho, só lhe resta o Caixão. Vai, SAF, deixa o orgulho de lado, chama o Lula. É dinheiro público, mas e daí? 64 milhões aprovam.
Leia outras colunas do Marcus Gomes aqui.


