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marcus gomes

Se a Argentina vencer, Deus não existe

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Apresentei aos leitores brasileiros, tão avessos à leitura, o escritor Hernán Casciari, argentino radicado na Espanha catalã. De fato, ele retornou a Buenos Aires recentemente, após um infarto. Casciari teve sua obra publicada em vários países. No Brasil, apenas um livro foi editado em português: Não Ligo Para Futebol (Corner, 2020). É suficiente.

Respeitável público, eis o português João Pereira Coutinho. Ele escreve na Folha de S. Paulo desde priscas eras. E, ainda que lusitano e morador ilustre de Lisboa, é, de longe, o melhor colunista dos jornais daqui. Ombreia Paulo Francis, Nelson Rodrigues, Ivan Lessa, Diogo Mainardi, Clóvis Rossi, Sérgio Augusto e Millôr Fernandes. Mas convém apresentá-lo aos nativos.

Coutinho publicou um texto nesta manhã. Creio ser de bom alvitre reproduzir trechos. Se o faço, brindo meus três leitores. É suficiente.

Não são apenas os brasileiros. “O mundo ao redor olha para as vitórias sofridas da seleção argentina como uma provocação maldosa – ou pior, uma fraude completa”, assinala o colunista.

“A Argentina na semifinal é uma injustiça clamorosa. Se avançar para o jogo derradeiro, é uma injustiça cósmica. Se for campeã novamente, Deus não existe e a raça humana deve ser extinta.”

Todas as Copas compradas

De fato, a Argentina não mereceria nenhuma de suas Copas. Em 1978, em plena ditadura, o troféu teria sido comprado pela junta militar, que corrompeu o Peru para perder de goleada, além do árbitro da final contra a Holanda.

“Em 1986, a ‘mão de Deus’ é uma das páginas mais vergonhosas da história das Copas — falo do gol que Maradona marcou com a mão. Como respeitar uma campeã que elimina a Inglaterra nas quartas de final com um roubo tão descarado?”

E 2022, no Qatar, foi a prova definitiva de que a Fifa e os árbitros salvaram a seleção, sobretudo depois da derrota chocante da estreia para a Arábia Saudita. Tudo é negócio sujo.

Coutinho é sabedor, como eu também sou, das alegações de que o Peru, depois da derrota conveniente, recebeu 35 mil toneladas de grãos argentinos e os US$ 50 milhões que tinha retidos no Banco Central da Argentina.

“O problema”, diz Coutinho, “é que os historiadores das Copas pintam outro quadro: Jonathan Wilson, no recente The Power and the Glory, não economiza elogios à Argentina de Kempes e companhia — tanto no jogo contra o Peru quanto na final contra a Holanda. Para Wilson, foi a primeira vez que a Argentina abandonou o ‘antifutebol’ da destruição e da brutalidade para abraçar a inteligência tática, técnica e estética de César Menotti.”

Tratemos, então, de 1986. Recorda-se, com insistência maldosa, da mano de Dios, mas não da jogada em que Maradona driblou metade da seleção inglesa, incluindo o goleiro, para fazer o dois a zero. Casciari — cujo livro, citado a esta altura, já se tornou leitura obrigatória aos bípedes — trata desse episódio histórico na crônica “10,6 segundos”. Nesse pequenino recorte no tempo e no espaço, Maradona deu quarenta passos e doze toques na bola até deixá-la descansar no fundo das redes. “Era a hora de explicar a todos quem ele era, quem ele fora e quem ele seria até o fim dos tempos.”

Tortura e masoquismo

“A grande verdade é que o ódio à seleção [Argentina] tem raízes mais profundas: nosso desejo por narrativas simples”, diz Coutinho. “A Copa de 2026 não foge à regra. Se a Argentina tivesse sido eliminada cedo, o arco narrativo se fecharia com a decadência da campeã. Se, ao contrário, a seleção fosse como a França de ontem — um rolo compressor imparável —, o arco também se fecharia: seria a campeã demonstrando sua superioridade.”

A Argentina desta Copa é uma história de ambiguidade e tortura. É um espetáculo de masoquismo — ou de sadomasoquismo, melhor dizendo — que arrebenta nossa pobre capacidade de compreensão. Queremos previsibilidade; a Argentina nos oferece caos, colapso, gênio e vitórias arrancadas no sofrimento.

O escritor Nick Hornby, outro fanático do futebol e autor de Febre de Bola, definiu o esporte como pain as entertainment, a dor como entretenimento. A Argentina é esse entretenimento levado ao extremo. Talvez não seja por acaso que Buenos Aires tenha fama de ter uma das maiores concentrações de psicanalistas por habitante do mundo. Aquele povo precisa, escreve Coutinho.

“Feitas as contas, o que desejo eu para a semifinal contra a Inglaterra? Não renego meu lado anglófilo. Mas não tenho apenas um lado anglófilo. O gosto pela ópera e pela tragédia me faz simpatizar com a seleção mais lírica e trágica desta Copa.”

Minha aposta, e acho que também a de Coutinho, é que dançaremos o tango.

Imagem: Gerada por IA

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