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ERNANI BUCHMANN CABECA hojesc

Sátiro, o amigão

Ernani Satyro foi um político paraibano, além de escritor, cronista, ensaista, poeta e fazendeiro. Governador da Paraíba e prefeito de João Pessoa, exerceu também oito mandatos de deputado federal. Com o sobrenome facilitado para Sátiro, marcou sua trajetória pelas atitudes e pelas histórias.

Nos anos 1970, após a conquista do tricampeonato mundial pela seleção brasileira no México, houve uma verdadeira infestação de estádios de formato oval no país, bancados por governos estaduais, seguindo o padrão dos já existentes Maracanã, Morumbi e Mineirão. Vieram à luz os estádios de Aracaju, Maceió, Natal, Fortaleza, Teresina, São Luiz, Belém, Macapá, Manaus, Boa Vista, Brasília, Goiânia, Campo Grande e Cuiabá. No Recife, o governador Marco Maciel, filho de um ícone do Santa Cruz, preferiu investir do Arrudão, estádio do Santa Cruz que leva o nome de seu pai, José do Rego Maciel.

Faltava um estádio na Paraíba. Meu xará, governador do estado, mandou erguer não um, mas dois, para não descontentar Campina Grande, a maior cidade do interior e rival da capital. Assim foram construídos, com capacidade de público semelhantes, o Almeidão, em João Pessoa, homenagem ao político, ex-ministro e escritor José Américo de Almeida; e o Amigão, em Campina Grande, este batizado com seu próprio nome.

Ernani Sátiro gostava muito de whisky. Em certa ocasião mandou convocar os repórteres que cobriam o dia a dia do palácio para uns comes e bebes. Como jornalista é louco por boca livre, não faltou ninguém. O governador sentou-se em uma poltrona, munido de uma garrafa de bom escocês e gelo à vontade. Um repórter aproximou-se, serviu-se do néctar governamental e passaram a conversar. Minutos mais tarde, o rapaz fez menção de completar a dose. Ernani segurou seu braço e avisou:
– Amigo velho, este é o meu whisky. O seu está lá naquela mesa.

Na mesa referida destacava-se uma garrafa de Bell’s, medíocre genérico nacional dos bons escoceses, capaz de badalar seu sino no fígado dos incautos.

Em outra ocasião, ao chegar à casa de um correligionário, o anfitrião avisou ter mandado passar um cafezinho especial para o governador. Ele não gostou:
– Tem whisky?
Não havia. “Uma cachacinha?”. Também não. “Cerveja?”. Negativo. Já irritado, fez uma última tentativa:
– Mas um moleque para buscar cerveja no bar da esquina você tem?
Como nem isso tinha, tirou no bolso uma nota e deu ao anfitrião:
– Então vá você mesmo comprar umas cervejas bem geladas.
Outro episódio ocorreu durante uma série de inaugurações em cidade do interior. Ao chegar à primeira, acercou-se um ciclista, pedindo dinheiro para enviar a mãe doente para um hospital em João Pessoa. Ernani não deu. Uma hora mais tarde, em outro evento, o ciclista insistiu. Não levou. Por volta do meio-dia, na terceira tentativa, o governador tirou uma nota de cinco cruzeiros do bolso e esticou ao filho obstinado, mas não agradou:
– Governador, isso é muito pouco. Com esse dinheiro, só se eu mandar mamãe pelo correio!
Ernani Sátiro não se abalou:
– Amigo velho, minha contribuição é essa. O meio de transporte você escolhe.

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