Carlos Santana, guitarrista mexicano, é um dos últimos ícones do rock latino de qualidade. Com sua banda, Santana, lançou em outubro de 2005, seu 12º álbum de estúdio, All That I Am, repetindo a fórmula dos dois álbuns anteriores: muitos convidados e hits radiofônicos, fechando uma trilogia comercial, porém muito criativa. Tema produção de Clive Davies e vendeu menos que seus antecessores.

Hermes é a abertura perfeita. Não um prólogo, mas uma declaração de princípios: antes de qualquer convidado, antes de qualquer hit, existe uma banda. E que banda. Dennis Chambers na bateria é um show à parte, mas Santana não tenta competir com ele. Eles dançam juntos.
El Fuego (feat. Andy Vargas) dá o início aos hits. Andy Vargas é a voz que Santana escolheu para representá-lo quando ele mesmo não canta. E faz sentido: Vargas tem a energia de um frontman de turnê. Profissional, confiável, mas com faísca de verdade. A canção é exatamente o que promete: quente, dançante e direto. Nenhuma pretensão. Apenas fogo.
I’m Feeling You (feat. Michelle Branch & The Wreckers) é a primeira grande surpresa para quem acha que Santana só brilha no vigoroso. Esta é uma canção sobre a delicadeza. Michelle Branch entrega uma performance contida e doce, e Santana responde com um dos solos mais sutis de sua carreira. Não há pirotecnia. Há conversa. A guitarra não interrompe a cantora, ela a completa. É uma lição de musicalidade colaborativa.
My Man (feat. Mary J. Blige & Big Boi) é o coração do álbum. Mary J. Blige não é apenas uma convidada; ela é uma co-autora emocional da faixa. Quando ela canta “That’s my man”, há uma história inteira ali, de lealdade, de superação, de amor que sobrevive ao caos. Big Boi entra com um verso que poderia ser deslocado, mas em vez disso adiciona uma camada urbana que ancora a música no presente. E Santana? Ele espera. Ele deixa Mary brilhar. E então, no final, quando tudo já foi dito, ele entra com um solo curto que é menos uma declaração e mais um abraço. É de uma elegância rara.
Just Feel Better (feat. Steven Tyler) é a faixa que prova que Santana é um dos poucos músicos capazes de domar a força da natureza chamada Steven Tyler. Em vez de tentar competir com a voz estratosférica do vocalista do Aerosmith, Santana recua e toca entre as frases vocais. O resultado é uma das baladas de rock mais bem construídas dos anos 2000. E quando os dois finalmente se encontram no clímax, Tyler gritando “Just feel better” e a guitarra gemendo a mesma melodia, é um daqueles momentos em que você agradece por existir gravação.
I Am Somebody (feat. will.i.am) é a faixa mais subestimada do álbum. will.i.am, na época, ainda não era o personagem caricato que se tornaria depois. Ele era um produtor criativo que entendia de ritmo. E a canção é, acima de tudo, uma celebração. A mensagem é simples, mas a entrega é espetacular. O beat é quadrado, sim, mas é proposital. É uma canção para balançar a cabeça no carro com os vidros abertos. Santana, longe de estar deslocado, parece se divertir. Seu solo é leve, quase brincalhão. É a faixa que o álbum precisava para lembrar que nem tudo precisa ser solene.
Con Santana é a segunda joia instrumental. Dessa vez com metais. É uma homenagem declarada ao som da banda nos anos 70, mas sem nostalgia barata. Os trompetes e trombones não tentam replicar o passado; eles dialogam com a guitarra em tempo real. É uma faixa que respira. Dá pra imaginar a banda tocando num estúdio, todos se olhando, sorrindo.
Twisted (feat. Anthony Hamilton) é uma canção de alma. Anthony Hamilton tem uma das vozes mais subestimadas da música americana. Quente, terrosa, cheia de alma antiga. E Santana sabe exatamente o que fazer com ela. Ele simplesmente a acompanha. O resultado é a faixa mais íntima do álbum. Não há pressa, não há exibicionismo. Apenas um homem cantando sobre amor complicado e outro homem respondendo com uma guitarra que parece suspirar. É linda.
Trinity (feat. Kirk Hammett & Robert Randolph) é o momento “três gerações, três mundos”. Kirk Hammett (metal), Robert Randolph (pedal steel gospel) e Santana (latin rock). Três formas completamente diferentes de tocar a mesma nota. E em vez de soar como um Frankenstein, a faixa funciona como um manifesto da diversidade musical. Hammett não está tentando tocar como no Metallica. Ele está tentando tocar com Santana. E Randolph, com seu pedal steel que parece uma guitarra falando outra língua, é a ponte perfeita entre os dois. É uma jam session de amigos improváveis que deu certo.
Cry Baby Cry (feat. Sean Paul & Joss Stone) é a faixa mais divertida do álbum. Sean Paul traz o dancehall, Joss Stone traz o soul, e Santana traz o groove latino. O resultado é uma mistura que não deveria funcionar, mas funciona. É uma canção para dançar sem pensar, para cantarolar no chuveiro. Joss Stone, com seus 18 anos na época, já entregava uma maturidade vocal impressionante. E Sean Paul faz o que sabe fazer de melhor: criar um refrão grudento. Santana, longe de ser coadjuvante, costura tudo com acentos de guitarra que lembram que, por baixo da produção pop, há um músico de verdade no comando.
Brown Skin Girl (feat. Bo Bice) é a faixa mais injustiçada. Sim, Bo Bice veio do American Idol. Sim, a produção é redonda e radiofônica. Mas ouça com atenção. A canção é uma celebração genuína da beleza negra e latina em um momento em que isso ainda raramente era dito em canções de rock. A letra é simples, mas sincera. E a performance de Bo Bice é muito melhor do que a crítica admitiu. Ele canta com convicção, sem afetação. Santana, por sua vez, entrega um solo econômico e eficaz.
I Don’t Wanna Lose Your Love (feat. Los Lonely Boys) é uma colaboração que parece ter saído do mesmo sonho. Os Los Lonely Boys, três irmãos texanos que tocam um rock com alma latina, são parceiros naturais de Santana. A faixa tem a energia de um clássico instantâneo: refrão forte, harmonia vocal impecável, e um solo de Santana que parece um diálogo entre primos que não se viam há anos.
Da Tu Amor é o encerramento perfeito. Depois de uma hora de viagem por diferentes gêneros, diferentes vozes, diferentes emoções, Santana volta para casa. É é uma canção em espanhol, com coro gospel, percussão e uma simplicidade que desarma. No final, tudo o que importa é o amor que você dá. A guitarra final, que se dissolve lentamente, não é um adeus. É um “até logo”.
All That I Am não é um álbum sobre ruptura. Não é sobre inovação. Não é sobre “voltar às origens”. É um álbum sobre abundância. Carlos Santana, aos 58 anos, já havia feito álbuns revolucionários, álbuns espirituais, álbuns comerciais e álbuns experimentais. O que lhe restava? A resposta dele foi: “Fazer um disco onde eu celebre todos os meus gostos musicais ao mesmo tempo, cercado de amigos”. E é isso que esse álbum entrega. Um álbum que não tem vergonha de ser pop, não tem vergonha de ser latino, não tem vergonha de ser espiritual, não tem vergonha de ser divertido. É um álbum de um homem que aprendeu que a maturidade não é sobre escolher um caminho, mas sobre abraçar todos eles. É um álbum para ouvir com o coração aberto. Com o espírito do rock. Do bom e velho rock’n’roll.

