A redemocratização no país, a partir dos anos 1980, trouxe debates acirrados entre os que se situavam ao lado do governo militar, agrupados no PDS, e o pessoal da oposição, fechado com o PMDB. Os oposicionistas tinham recebido um grande reforço a partir da fusão com o PP, partido criado por Tancredo Neves para ser oposição branda ao regime fardado.
No Paraná a fusão levou para o PMDB um grupo muito influente, comandado por Jaime Canet Jr., ex-governador nomeado pelos militares. José Richa, ex-prefeito de Londrina seria o candidato, contra Saul Raiz. Briga de cachorro grande.
As melhores cabeças de ambos os lados entraram em campo. As estratégias foram se definindo, com Ney Braga como candidato da situação ao Senado, e Alvaro Dias, ao lado de Richa, pleiteando o mesmo posto.
Jamil Snege, Almir Feijó, Bira Menezes, Fernando Ghignone, Antonio Freitas, Luiz Alberto Dalcanalle, entre outros, pensavam os rumos da campanha Richa/Alvaro, e a Múltipla Propaganda, com Gilberto Ricardo dos Santos, Desiderio Pansera e seu pessoal criativo, incluindo Paulo Leminski, Retamozzo, Solda e outros cérebros afiados, municiando a turma do Palácio Iguaçu.
Certa noite, Jamil Snege tirou da cartola o slogan da campanha da oposição. Simples e certeiro: RICHA. OU FICA COMO ESTÁ. Na mosca, trazendo o sentimento de mudança do eleitor para o centro do debate.
O estado foi tomado por out-doors com a frase, sem ilustração (alltype no jargão publicitário). Foi um sucesso, mas a situação retrucou em seguida: SAUL E NEY. OU UM SALTO NO ESCURO, com letras brancas sobre fundo preto.
Na trincheira pemedebista, surgiu uma luz, sem duplo sentido, para neutralizar a resposta governista. Consta que Fernando Ghignone – a conferir – e o depois deputado estadual e federal José Felinto criaram a manobra clandestina que desmoralizou o out-door da situação. Mandaram comprar centenas de latas de tinta preta, para que, na madrugada, a tigrada do PMDB cobrisse a palavra “OU” da peça adversária.
Ao amanhecer, Curitiba viu que o salto do escuro tinha mudado de lado. Não havia como não rir da esperteza. Mesmo os eleitores de Saul e Ney se entregaram a um esgar sorridente.
Richa venceu a eleição, como todos sabemos. E a sacada criativa e oportuna foi para a história, como o leitor pode conferir na ilustração desta crônica, que nasceu da excelente memória de Bira Menezes, guardador de preciosidades.
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