Poucos álbuns ao vivo tiveram impacto tão grande na história do rock brasileiro quanto Rádio Pirata ao Vivo, segundo álbum da discografia do RPM e um dos grandes fenômenos comerciais da música brasileira dos anos 1980. Lançado em28 de julho de 1986, o álbum registrou a banda em um momento de extraordinária popularidade e transformou o repertório do grupo em um espetáculo de dimensões muito maiores do que aquelas sugeridas pelo seu primeiro disco de estúdio. O álbum foi gravado nos dias 26 e 27 de maio de 1986, no Pavilhão de Convenções do Anhembi, em São Paulo. A banda formada por Paulo Ricardo (baixo e vocal), Luiz Schiavon (teclados), Fernando Deluqui (guitarra) e Paulo Pagni (bateria), aparece muito mais poderosa, com uma produção que procura reproduzir a grandiosidade do espetáculo. O resultado é um álbum que funciona simultaneamente como documento de uma época e como demonstração da força musical da banda.

Com Revoluções Por Minuto, a abertura não poderia ser mais apropriada. Já era uma das composições mais representativas da banda, mas a versão ao vivo amplia sua dimensão. O que no estúdio possuía uma estrutura relativamente compacta ganha aqui uma intensidade muito maior. O elemento central continua sendo a interação entre o baixo de Paulo Ricardo e os teclados de Luiz Schiavon. O baixo não funciona apenas como sustentação harmônica. Ele participa ativamente da construção melódica. Schiavon, por sua vez, cria uma camada eletrônica que dá à canção seu caráter futurista. A guitarra de Fernando Deluqui acrescenta agressividade, enquanto Paulo Pagni mantém uma bateria firme, articulando o rock tradicional com a estética eletrônica da banda.
Alvorada Voraz estabelece o clima do espetáculo, mostrando imediatamente a capacidade da banda de construir uma canção pop extremamente poderosa. A composição possui uma estrutura mais acessível, mas não é musicalmente simples. O arranjo combina teclados, baixo, guitarra e bateria de maneira muito equilibrada. A interpretação de Paulo Ricardo é particularmente importante. Sua voz possui uma característica dramática que combina perfeitamente com a atmosfera da canção. Os teclados de Schiavon desempenham papel fundamental na criação da atmosfera. Fernando Deluqui adiciona guitarras que funcionam como contraponto à eletrônica, evitando que a canção se transforme em puro synth-pop.
A Cruz E A Espada tem uma característica mais melódica, permitindo que Paulo Ricardo explore sua capacidade interpretativa. O baixo é mais discreto, enquanto os teclados ocupam um espaço importante na construção da harmonia. A guitarra de Deluqui aparece de maneira mais econômica, funcionando principalmente como elemento de ambientação. É uma faixa em que a banda demonstra que seu repertório não dependia exclusivamente de energia ou de efeitos eletrônicos.
Naja é uma das grandes surpresas do álbum. Diferentemente das demais faixas, trata-se de um instrumental baseado principalmente no trabalho de Luiz Schiavon. Sua presença é importante porque permite que o tecladista deixe de ser apenas o responsável pela atmosfera eletrônica. A faixa apresenta uma construção progressiva, com sintetizadores que criam diferentes camadas sonoras. É uma peça que revela claramente o interesse da banda pela tecnologia musical. A bateria de Paulo Pagni é fundamental para impedir que a composição se torne excessivamente abstrata. Sua execução fornece um eixo rítmico que mantém a faixa ligada ao rock.
Olhar 43 é um dos maiores sucessos da banda. É uma composição pop extremamente eficiente, mas sua versão ao vivo demonstra que existe muito mais por trás de sua aparente simplicidade. A canção se sustenta sobre um groove envolvente, no qual baixo e bateria trabalham em perfeita sintonia. Paulo Ricardo utiliza uma interpretação mais descontraída, explorando o aspecto sensual e bem-humorado da letra. Os teclados de Schiavon criam uma atmosfera tipicamente oitentista, enquanto a guitarra acrescenta textura sem competir com a melodia principal. O grande mérito está na economia. Nenhum instrumento tenta dominar a música. Tudo é colocado a serviço do refrão.
Estação No Inferno possui um caráter mais sombrio, tanto musicalmente quanto conceitualmente. O arranjo utiliza uma combinação de baixo pulsante, bateria firme, guitarras e sintetizadores que cria uma sensação de movimento constante. Paulo Ricardo canta com intensidade crescente. A guitarra de Fernando Deluqui ganha maior importância, acrescentando uma dimensão mais roqueira à sonoridade. Luiz Schiavon, entretanto, continua essencial. Os teclados ajudam a construir uma espécie de paisagem sonora.
London, London, composição de Caetano Veloso, é um dos momentos mais interessantes do álbum. A canção recebe uma interpretação que a aproxima do universo eletrônico e pop da banda, mas sem destruir sua essência melancólica. A voz de Paulo Ricardo é particularmente adequada à melodia. Sua interpretação não tenta imitar Caetano Veloso. Busca encontrar uma identidade própria.
Flores Astrais, composição da banda Secos & Molhados, é outro momento de grande interesse. A banda não trata a canção como simples exercício de nostalgia. Incorpora sua própria linguagem eletrônica. Os teclados de Schiavon assumem papel importante na criação de uma atmosfera quase psicodélica. A guitarra adiciona peso, enquanto a bateria mantém a composição em movimento. A voz de Paulo Ricardo traz uma interpretação mais teatral, aproximando-se da atmosfera dramática da composição original sem simplesmente reproduzi-la. É uma das melhores demonstrações de como a banda absorvia influências diversas e as incorporava à própria identidade.
O encerramento, com Rádio Pirata, é a grande apoteose do álbum. Com quase oito minutos, a faixa é muito mais do que uma canção. É uma espécie de síntese conceitual do universo da banda. A composição começa com uma atmosfera de expectativa e rapidamente evolui para uma construção grandiosa. Os teclados de Schiavon desempenham papel fundamental, criando uma paisagem sonora ampla. O baixo de Paulo Ricardo mantém a estrutura firme, enquanto a guitarra de Deluqui acrescenta peso. Pagni, por sua vez, sustenta com uma bateria que cresce progressivamente. A grande força da faixa está em sua estrutura. Ela não se comporta como uma música pop convencional. Existem mudanças de dinâmica, momentos instrumentais e uma construção gradual que prepara o clímax.
Rádio Pirata ao Vivo é um dos grandes documentos da explosão do rock brasileiro dos anos 1980. Seu valor, porém, não está apenas no sucesso comercial ou na importância histórica. O álbum permanece interessante porque registra uma banda que estava tentando ampliar os limites do rock nacional.
É importante também observar que o álbum não é simplesmente uma reprodução ao vivo do RPM de estúdio. A banda amplia as próprias composições, acrescenta teatralidade e enfatiza a dimensão eletrônica de seu som. Nesse sentido, o álbum funciona como um ponto de encontro entre o rock de arena, a música eletrônica e a tradição do rock brasileiro. Do rock’n’roll. O bom e velho rock’n’roll.
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