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MARCUS VIDAL CABECA hojesc

Rainbow e sua obra-prima do heavy metal

Rising é frequentemente apontado como a obra-prima do Rainbow e um dos pilares fundamentais do heavy metal clássico. Lançado em 17 de maio de 1976, o segundo álbum da sua discografia representa o encontro perfeito entre o virtuosismo neoclássico da guitarra de Ritchie Blackmore e a potência vocal quase sobrenatural de Ronnie James Dio. A formação que gravou o disco, completada por Cozy Powell (bateria), Jimmy Bain (baixo) e Tony Carey (teclados), criou um som monumental, pesado e teatral. Diferente do hard rock bluesy típico dos anos 70, o álbum introduz elementos que moldariam o metal épico das décadas seguintes, com riffs sombrios, temática fantástica, estruturas dramáticas e forte influência da música clássica. A produção é seca e poderosa e ficou a cargo de Martin Birch.

rainbow rising

 

A abertura com Tarot Woman estabelece imediatamente a grandiosidade do álbum. A introdução de teclado de Tony Carey cria tensão crescente, quase cinematográfica, até a entrada explosiva do riff principal. O riff de Blackmore é um exemplo perfeito de construção neoclássica aplicada ao hard rock: notas rápidas, intervalos dramáticos e senso melódico sofisticado. Cozy Powell entra com bateria pesada e extremamente precisa, usando viradas largas que ampliam a sensação épica. Ronnie James Dio domina completamente a música. Sua interpretação mistura narrativa, teatralidade e força melódica.

 

 

Run With The Wolf é mais direta e agressiva. Construída sobre um riff cortante e repetitivo. Blackmore utiliza palhetada seca e precisa, enquanto Jimmy Bain sustenta o peso com linhas simples, mas muito firmes. A bateria de Cozy Powell é essencial aqui. Seu estilo é quase militar, transformando a música em uma marcha pesada e ameaçadora. Dio canta com agressividade controlada, explorando imagens de perseguição e sobrevivência. O refrão funciona como explosão coletiva, reforçando a energia predatória da faixa.

Starstruck é a canção mais acessível do disco, mas ainda carregada de peso. O riff é mais simples e direto, com forte influência do hard rock tradicional. O diferencial está na dinâmica. Os versos são relativamente compactos, enquanto o refrão abre harmonicamente e ganha enorme impulso melódico. Blackmore executa pequenos preenchimentos entre os vocais, mantendo a canção constantemente em movimento. O solo é curto, mas extremamente eficiente.

 

 

Do You Close Your Eyes é mais próxima do rock’n’roll clássico. O andamento é rápido e energético, quase festivo em comparação ao restante do álbum. A guitarra trabalha riffs simples e diretos, enquanto Cozy Powell acelera a condução da bateria. Há forte influência do boogie rock aqui. Mesmo sendo menos épica, a canção é importante para equilibrar o álbum e mostrar a versatilidade da banda.

Stargazer é o centro absoluto do álbum. Uma das canções mais importantes da história do heavy metal. A introdução de bateria de Cozy Powell é monumental. Seus tambores soam quase tribais, criando sensação ritualística antes da entrada do riff principal. Blackmore constrói um riff hipnótico baseado em repetição descendente, enquanto a orquestra adiciona profundidade dramática. O uso da Munich Philharmonic Orchestra não serve como mero ornamento. Amplia o peso emocional da composição. Dio entrega talvez sua performance vocal definitiva. Sua interpretação transmite obsessão, grandeza e tragédia. A narrativa sobre um mago tentando alcançar os céus transforma a canção em uma espécie de épico mitológico. O solo de Blackmore é extraordinário. Ele alterna escalas orientais, fraseado bluesy e velocidade controlada, criando tensão crescente até o clímax final.

 

 

A Light In The Black é o encerramento explosivo e altamente técnico. A introdução já surge acelerada, com riff agressivo e andamento intenso. A seção instrumental central é impressionante. Blackmore e Tony Carey travam quase um duelo entre guitarra e teclado, antecipando estruturas que mais tarde seriam comuns no metal neoclássico. Cozy Powell mantém precisão absurda mesmo em alta velocidade, enquanto Jimmy Bain sustenta o eixo harmônico. Dio aparece menos dominante aqui, pois a música privilegia a instrumentalização, mas sua presença continua poderosa nos refrões. O final é frenético e grandioso, encerrando o álbum com maestria.

Rising é um dos álbuns que ajudaram a transformar hard rock em heavy metal épico. O Rainbow combina peso, virtuosismo, teatralidade, influência clássica e narrativa fantástica. A química entre Ritchie Blackmore e Ronnie James Dio é o coração do álbum. Um guitarrista construindo paisagens sonoras grandiosas e um vocalista capaz de transformá-las em mitologia musical. É um álbum curto, mas monumental. Um álbum de rock’n’roll. Do bom e velho rock’n’roll.

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