Chega-se a uma época na vida em que os prazeres são substituídos pelas restrições. Não falo em jogar uma partida de futebol, atividade que só atletas devem seguir praticando depois de certa idade, à exceção do Valdemar Malucelli. Refiro-me a coisas prosaicas. As restrições começam pelo açúcar. Se fosse só a colherada no cafezinho, tudo certo. Hoje em dia todo mundo toma café com adoçante, salvo os muito magros.
O problema surge nos doces. Aquele pudim de leite da vovó, o strudel de maçã da confeitaria alemã, o arroz doce da titia. Esqueça, lamba os beiços e deixe cair uma lágrima. Você está proibido de forma terminante, é capaz de ser amordaçado por filhos e esposa caso insista em cometer tal crime.
Em seguida vem a proibição alcoólica. A cerveja acompanhada por uma boa cachaça mineira com torresmo e aipim também passam a fazer parte dos pecados capitais. Whisky, então, Deus te livre! No máximo uma taça de vinho eventualmente. Nos jantares comemorativos, água mineral. É para que você se sinta no deserto, um camelo a beber água com moderação, sua corcunda gerada pela depressão transformada em corcova.
Mas o pior está na comida. Se existe uma palavra que não suporto mais ouvir é proteína. Na idade anterior, o sujeito combinava jantar em Santa Felicidade sem dor na consciência ou temor de qualquer tipo. Agora não pode mais encarar uma lasanha, um risoto. Tudo a transformar as massas de ótimas procedências em efeitos deletérios, porque carboidrato virou palavrão. Vai afetar suas coronárias (as minhas já foram afetadas há anos), complicar a circulação (mesmo sem as massas a minha anda comprometida), inchar suas pernas. É infarto que você quer, é?
Conheci um italiano que viveu muito bem comendo duas lasanhas em uma refeição para depois tomar café com adoçante. Quando perguntei a ele sobre o adoçante, respondeu feliz da vida:
– Eu dirijo uma camionete. Se tomar café com açúcar, a barriga bate no volante e me atrapalha.
Morreu feliz com sua gordura.
Ando tão revoltado com a tal proteína que tenho pesadelos com ela. Há algumas noites, resolvi engrossar com um garçom que perguntou o que eu iria pedir de proteína.
– A sua mãe, respondi.
Houve uma altercação, mas a Tânia me acordou em seguida.
– Bom dia. Vou fazer ovos mexidos para você.
Ela é cautelosa. Se falasse proteína, eu não responderia pelos meus atos.
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