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DESINFORMAÇÃO

Redes de influencer argentino espalha falsa ‘invasão’ de marroquinos em SC para prejudicar Lula

Fernando Cerimedo marroquinos santa catarina

Uma rede de perfis e veículos digitais ligada ao influenciador argentino Fernando Cerimedo, personagem próximo ao bolsonarismo brasileiro e que participou da campanha de Javier Milei, ajudou a transformar algumas dezenas de pedidos de refúgio de marroquinos em Santa Catarina numa suposta crise migratória atribuída ao governo Lula. As informações foram publicadas em reportagem pelo jornal Folha de S.Paulo.

A narrativa começou no La Derecha Diario, portal argentino do qual Cerimedo detinha 50% até a semana passada. A publicação afirmava que a chegada de marroquinos ao Brasil havia “disparado” por causa da política migratória do governo federal e sugeria impactos econômicos para municípios catarinenses.

Para reforçar a sensação de uma chegada em massa, foram utilizadas imagens de milhares de migrantes tentando entrar em Ceuta, território espanhol no norte da África — cenas sem qualquer relação com Santa Catarina.

Os números oficiais mostram uma dimensão bem diferente. Dados do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) e do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) apontam que, até julho, 57 marroquinos haviam solicitado refúgio em Santa Catarina em 2026. Eles correspondem a apenas 1,86% das 3.059 solicitações registradas no estado. No mesmo período, foram contabilizados 1.707 pedidos de cubanos, 543 de haitianos e 227 de venezuelanos.

Apesar da pequena participação dos marroquinos no fluxo total, a narrativa ganhou escala rapidamente. Levantamento do Observatório Lupa identificou 13,4 mil menções ao assunto em redes sociais e sites entre os dias 21 e 27 de agosto. Algumas das publicações que falavam em “onda” ou “invasão” chegaram a 475 mil visualizações. A circulação começou principalmente em contas argentinas e depois avançou sobre perfis brasileiros, em português e espanhol.

Entre os responsáveis pela amplificação aparece o influenciador argentino Christopher Marchesini, conhecido como Mate con Mote, que vinculou a chegada dos marroquinos a Lula e chegou a dizer que o movimento ameaçaria a fronteira argentina. Marchesini esteve em maio com Milei na Quinta de Olivos, residência oficial da Presidência argentina, durante encontro do presidente com influenciadores.

O episódio volta a colocar Fernando Cerimedo no centro de uma rede digital que ultrapassa as fronteiras argentinas. Próximo da família Bolsonaro, ele ganhou projeção no Brasil após divulgar, depois da eleição de 2022, acusações sem provas contra o sistema eletrônico de votação. Cerimedo chegou a ser indiciado pela Polícia Federal na investigação sobre a tentativa de golpe, embora não tenha sido incluído posteriormente na denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República. No fim de julho deste ano, participou de nova transmissão com Eduardo Bolsonaro levantando suspeitas sobre as urnas brasileiras.

Cerimedo também atravessa neste momento uma crise judicial. Ele foi preso na Bolívia sob acusação de envolvimento em um ataque a tiros contra a ex-companheira Nadia Beller. O argentino nega participação no crime. Pouco depois da prisão, deixou formalmente sua participação no La Derecha Diario.

Para os pesquisadores que acompanharam a circulação das mensagens, o caso catarinense chama atenção justamente pela facilidade com que um dado verdadeiro — a presença de algumas dezenas de solicitantes de refúgio — foi retirado de proporção, associado a imagens de outro continente e transformado numa narrativa política de grande alcance.

Em Santa Catarina, a consequência saiu das telas. A Missão Scalabrini Pastoral do Migrante, que prestou atendimento aos marroquinos, relatou aumento expressivo de comentários hostis depois da viralização da história. A suposta “invasão”, portanto, não aparece nas estatísticas migratórias. Nas redes sociais, porém, já havia sido construída.

Foto: Reprodução/Instagram

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