Uma mulher olha para o alto, parcialmente encoberta por uma bandeira vermelha. Ao redor, vemos camisetas amarelas. A fotografia registra mais do que as cores de um ato político: revela como símbolos, corpos e enquadramentos constroem sentidos sobre o Brasil.
Uma fotografia nunca é apenas aquilo que mostra. O ângulo, a luz, o instante e o recorte influenciam a maneira como interpretamos uma cena. Em ano eleitoral, essas escolhas ganham ainda mais força: imagens não apenas documentam a política, mas também participam da construção de suas narrativas.
Nos últimos anos, o verde e amarelo foram intensamente associados à direita brasileira, sobretudo ao bolsonarismo. A repetição dessas cores em manifestações ajudou a consolidar um código visual que, para muitos, passou a indicar posicionamento ideológico. A bandeira nacional, antes reconhecida como símbolo compartilhado, tornou-se também território de disputa. Mas quem tem o direito de definir o significado das cores de um país?
Eu questiono a ideia de que esses símbolos pertençam a um único campo político. Recuperá-los, porém, não pode ser apenas uma disputa estética. Trocar os protagonistas de uma fotografia sem questionar a narrativa significa pouco. É preciso observar quem aparece nos enquadramentos políticos, quem permanece invisível e qual Brasil essas imagens apresentam. O país está apenas nos palanques e nas multidões ou também nas trabalhadoras, nos agricultores familiares, nas periferias e nos territórios ameaçados pela destruição ambiental?
A fotografia nos ensina a olhar, mas também nos convida a desconfiar daquilo que parece evidente. Uma imagem pode revelar uma realidade e, ao mesmo tempo, deixar outras histórias fora do quadro. Nas redes sociais, recortes e compartilhamentos ampliam esse poder, fazendo com que fotografias circulem para além de seus contextos originais.
O verde e amarelo não precisam pertencer à esquerda para deixar de ser tratados como propriedade da direita. São cores de um país plural, cuja identidade não cabe em uma única bandeira, partido ou fotografia. E, talvez, o desafio das eleições de 2026 seja justamente esse: olhar para além dos símbolos e perguntar que país estamos escolhendo construir. Porque, antes de perguntar quem veste as cores do Brasil, vale perguntar: quem escolhe o enquadramento — e quais Brasis permanecem fora dele?
(Imagem: Verde, amarelo e vermelho – Ato Pró-Lula em Vitória. Foto: A Gazeta)
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