Lançado em 21 de novembro de 1975, portanto completando cinquenta anos, A Night At The Opera foi um ponto de virada não só para o Queen, mas para o rock da década. É um álbum de extravagância técnica e emocional, em que o quarteto, Freddie Mercury, Brian May, Roger Taylor e John Deacon, transformou o estúdio em laboratório. O álbum custou uma fortuna para a época, mas redefiniu o que significava ser uma banda de rock em estúdio com múltiplas camadas de vocais, orquestrações sem orquestra, experimentos de estereofonia e uma ousadia que beira o teatral. Uma obra-prima do rock. Seu nome vem do filme dos irmãos Marx, e a obra toda soa como uma comédia de costumes musical, ora grandiosa, ora debochada, ora genuinamente comovente.

O álbum começa com Death On Two Legs (Dedicated to…), uma explosão de rancor e sarcasmo. Freddie Mercury compôs a faixa como um ataque direto ao antigo empresário da banda, Norman Sheffield, que supostamente os explorara financeiramente. O piano inicial soa quase clássico, mas logo desaba num riff violento de Brian May, carregado de distorção e teatralidade. Mercury canta com veneno. Suas frases são afiadas, ditas com prazer vingativo. É uma abertura que combina arrogância, ironia e ferocidade.
Após o ataque inicial, vem o contraste. Lazing On A Sunday Afternoon é uma vinheta leve e espirituosa, onde Mercury encarna um personagem britânico do começo do século XX. A voz é processada por um megafone, o piano assume um ar de vaudeville, e tudo soa como um pequeno número de teatro musical. Em menos de dois minutos, a banda revela sua versatilidade e humor.
I’m In Love With My Car é composta e cantada por Roger Taylor. É uma homenagem sarcástica e apaixonada à obsessão automobilística. Taylor transforma o ronco de motores em metáfora erótica, e o arranjo acompanha essa energia com bateria poderosa e guitarras densas. A faixa é simples, mas visceral. A interpretação vocal rouca de Taylor dá autenticidade à piada e ao mesmo tempo, soa genuinamente entusiasmada.
Em You’re My Best Friend, John Deacon assume o protagonismo como compositor. É uma canção doce, de estrutura clássica, e uma das mais acessíveis do álbum. O uso do piano elétrico Wurlitzer dá um brilho distinto, e Mercury canta com calor e elegância. Liricamente, é uma das músicas mais sinceras do repertório da banda.
Composição de Brian May, ’39 é uma das joias mais discretas do álbum. Mistura folk, ficção científica e emoção humana. Um grupo de astronautas parte para uma missão espacial e retorna encontrando o tempo na Terra alterado. May canta com melancolia contida, acompanhado por violões e harmonias suaves. É uma canção sobre o tempo e a solidão, travestida de balada folk.
Sweet Lady é um hard rock direto e musculoso, marcado por uma métrica incomum que cria um balanço curioso e desorientador. Brian May entrega riffs agressivos e vocais de apoio intensos, enquanto Mercury canta de forma quase punk, crua e explosiva. É o momento mais bruto do álbum, lembrando que, por baixo da teatralidade, o Queen era uma banda de rock.
Seaside Rendezvous é um pequeno número cabaré, com arranjo vocal que simula uma banda inteira, inclusive instrumentos de sopro, usando apenas vozes humanas. Mercury e Taylor brincam de jazzistas de salão, evocando o humor dos anos 1920. É uma peça cômica e deliciosamente artificial, mostrando o perfeccionismo vocal do grupo e seu gosto pela paródia de estilos.
The Prophet’s Song é a faixa mais longa e ambiciosa do álbum. Escrita por Brian May, é uma pequena sinfonia rock com seções instrumentais intrincadas, riffs pesados e uma parte vocal polifônica onde Freddie Mercury grava múltiplas camadas de voz em eco, criando uma atmosfera quase mística. A letra é uma profecia sombria, sobre destruição e renovação, e a performance é arrebatadora. O solo de May é tenso e melódico.
Love Of My Life é o momento mais delicado e emocional do disco. Mercury compôs essa balada para Mary Austin, sua companheira da época. O arranjo é centrado em um piano clássico e em um violão delicado de Brian May, que também toca harpa. A melodia é de uma beleza espetacular, e a performance vocal é pura emoção. Nas turnês seguintes, essa se tornaria uma das canções mais queridas do público, transformada em coro coletivo.
Good Company é outra composição de Brian May, que assume o vocal principal e constrói uma pequena história musical. É uma canção que soa como jazz, com arranjo feito inteiramente por guitarras para imitar sopros e metais. A letra narra um homem que viveu cercado de “boa companhia” até perder tudo.
Bohemian Rhapsody é o ponto culminante do álbum e, para muitos, da carreira da banda. É uma peça complexa. Começa como balada introspectiva, entra em uma seção operística cheia de coros e termina num hard rock catártico. Freddie Mercury construiu a faixa como uma pequena ópera, com dezenas de gravações vocais sobrepostas e arranjos meticulosos de May e Taylor. A letra é enigmática, misto de confissão, culpa e transcendência. É um monumento de imaginação sonora e coragem artística, e encerra o disco com um clímax de intensidade e beleza.
O álbum termina com uma versão instrumental e irônica do hino britânico, God Save The Queen, arranjada por Brian May com guitarras orquestrais em camadas. É uma despedida espirituosa e teatral, fechando o círculo de pompa e humor que permeia o álbum.
A Night At The Opera é um álbum de contrastes: brutalidade e delicadeza, humor e dor, espetáculo e introspecção. Cada membro contribui com uma voz distinta, e o resultado é uma obra que desafia rótulos. É rock progressivo, pop, música de salão, folk e opereta, tudo ao mesmo tempo. É, acima de tudo, um testemunho da liberdade criativa do Queen no auge de sua inventividade. Em 1975, poucas bandas ousariam tanto, e menos ainda conseguiriam fazer disso um clássico do rock’n’roll. Do bom e velho rock’n’roll.
Leia outras colunas do Marcus Vidal aqui.

