Lançado em 22 de agosto de 1979, In Through The Out Door ocupa uma posição singular na discografia do Led Zeppelin. É um álbum que, desde seu primeiro contato, parece diferente de tudo aquilo que a banda havia feito anteriormente. As guitarras continuam presentes, John Bonham continua sendo uma força da natureza e Robert Plant mantém sua identidade vocal, mas o eixo criativo mudou.
Em vez de construir o álbum principalmente a partir dos riffs de Jimmy Page, a banda passou a explorar com muito mais intensidade os teclados de John Paul Jones, sintetizadores, estruturas mais sofisticadas e uma abordagem menos dependente do blues e do hard rock tradicional. O resultado é irregular em alguns momentos, mas fascinante como documento artístico.
Há canções extraordinárias, experiências pouco convencionais e uma atmosfera que oscila entre o épico, o melancólico, o experimental e o pop. É também, tragicamente, o último álbum de estúdio lançado pelo Led Zeppelin antes da morte de John Bonham, em 1980. A maior curiosidade é que o álbum foi lançado com seis capas diferentes. Ao adquirir o álbum, ele vinha embrulhado num papel de compras. Não se sabia qual era a capa.


A abertura é uma declaração de intenções. In The Evening começa com uma longa introdução instrumental construída a partir de sintetizadores e efeitos, criando uma atmosfera quase espacial. Para quem esperava uma entrada imediata de guitarra, a escolha certamente deve ter causado estranhamento. Quando Jimmy Page finalmente entra, porém, fica claro que a banda continua ali. O riff é pesado, mas possui uma estrutura diferente dos grandes riffs da banda. Há menos simplicidade bluesística e mais preocupação com textura e dinâmica. John Paul Jones fornece uma base harmônica que praticamente transforma a canção em uma paisagem sonora. A bateria de Bonham possui enorme peso no bumbo e na caixa, mas também existe uma precisão impressionante. O baterista consegue fazer a música parecer simultaneamente pesada e expansiva. Robert Plant entra depois, e sua voz apresenta uma característica interessante: está menos preocupada em demonstrar alcance vocal do que em transmitir maturidade.
Depois da grandiosidade da abertura, South Bound Saurez apresenta a banda mais descontraída. A canção possui uma estrutura de blues rock com forte influência de boogie, mas o elemento mais importante é o piano de John Paul Jones. O teclado conduz boa parte da composição fornecendo ritmo, harmonia e personalidade. Jimmy Page assume uma postura mais discreta. Sua guitarra não precisa dominar a faixa porque o piano já ocupa grande parte do espaço musical. Robert Plant canta com uma leveza que seria pouco comum nos primeiros trabalhos da banda.
Fool In The Rain é a faixa mais ousada do álbum. À primeira vista, parece uma canção pop sofisticada. Mas, por baixo dessa superfície, existe uma estrutura rítmica extremamente elaborada. O elemento mais surpreendente é John Bonham. O baterista incorpora uma influência de ritmos latino-americanos, especialmente no trecho instrumental central, e demonstra uma versatilidade que muitas vezes fica esquecida quando sua imagem é associada apenas ao peso. John Paul Jones novamente tem papel central. O baixo é extremamente musical e trabalha em conjunto com os teclados para criar uma base harmônica sofisticada. Robert Plant entrega uma interpretação particularmente delicada. A letra trabalha com expectativa, frustração e desencontro amoroso, e a canção reproduz essa sensação de maneira muito inteligente.
Hot Dog é o momento mais descontraído do álbum. A canção mergulha deliberadamente no country e no rockabilly, estilos que normalmente não seriam associados imediatamente à banda. A guitarra de Jimmy Page assume uma sonoridade mais seca e direta. Robert Plant canta com sotaque e atitude deliberadamente exagerados, transformando a interpretação em uma espécie de brincadeira. John Bonham mantém um ritmo simples e eficiente, enquanto John Paul Jones acompanha a estrutura sem tentar sofisticá-la excessivamente.
Com Carouselambra, o álbum volta a mergulhar profundamente no experimentalismo. É uma das composições mais longas e ambiciosas e talvez aquela que melhor representa a transformação da banda. O grande protagonista é John Paul Jones. Os sintetizadores dominam boa parte da estrutura, criando uma atmosfera que se aproxima do rock progressivo e até de determinadas tendências eletrônicas do final dos anos 1970. Os teclados estabelecem a arquitetura harmônica, o baixo acrescenta profundidade, a bateria de Bonham fornece o elemento orgânico e Page trabalha com guitarras que entram e saem da textura. Robert Plant, curiosamente, parece quase um elemento adicional dentro da composição. Isso não significa que esteja mal. É uma escolha estética. Plant está inserido dentro de uma construção muito maior.
All My Love é uma das canções emocionalmente mais importantes da carreira da banda. A composição possui uma delicadeza incomum, e isso está diretamente relacionado ao momento pessoal vivido por Robert Plant. John Paul Jones novamente assume papel central, principalmente através dos teclados. A harmonia possui uma característica quase pop, mas o arranjo mantém sofisticação suficiente para não soar convencional. A bateria de Bonham é econômica. Robert Plant canta com uma emoção diferente da agressividade habitual.
O álbum termina com I’m Gonna Crawl, uma composição que recupera de maneira mais explícita a tradição soul e blues do grupo. É uma canção lenta, sensual e profundamente melódica. O piano de John Paul Jones é fundamental para estabelecer o ambiente. A guitarra de Jimmy Page aparece de maneira muito mais tradicional, mais bluesística. John Bonham trabalha com extrema contenção. Sua bateria é elegante e pesada ao mesmo tempo. Robert Plant oferece uma das melhores interpretações do álbum. Sua voz possui uma qualidade envelhecida e emocional que combina perfeitamente com a música.
In Through The Out Door é um álbum que exige que o ouvinte abandone algumas expectativas. O Led Zeppelin estava mudando. Jimmy Page, historicamente o principal arquiteto musical do grupo, divide espaço com John Paul Jones de uma maneira inédita. Os teclados ganham enorme importância. Os sintetizadores entram definitivamente na linguagem da banda. Robert Plant abandona parte do exibicionismo vocal dos primeiros anos. John Bonham demonstra uma versatilidade rítmica impressionante. A banda ainda carregava o blues, o hard rock e a força instrumental que o haviam transformado em uma das maiores bandas da história. Ao mesmo tempo, começava a incorporar sintetizadores, estruturas mais pop e novas concepções rítmicas. O título parece quase uma metáfora involuntária. A banda estava tentando encontrar uma nova entrada quando sua trajetória foi interrompida. Não é o álbum mais perfeito da banda. Também não é o mais pesado, nem o mais revolucionário. Mas talvez seja um dos mais reveladores. Ele registra quatro músicos que, depois de quase uma década no topo do rock, ainda tinham curiosidade suficiente para experimentar. Experimentar o rock’n’roll. O bom e velho rock’n’roll.
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