Talvez exista algo mais inquietante do que esquecer a história: lembrar dela e, ainda assim, decidir que ela não importa.
O primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 terminou com Flávio Bolsonaro à frente de Lula, levando os dois ao segundo turno. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16%. Dois projetos políticos distintos voltam a disputar o futuro do país. E, diante disso, talvez seja tentador dizer que o Brasil esqueceu o passado. Mas será mesmo?
Talvez essa seja uma hipótese fácil demais. Porque uma pessoa pode conhecer as fotografias da ditadura, saber o que aconteceu, reconhecer a violência e, ainda assim, considerar outras coisas mais importantes. Pode olhar para uma imagem de repressão e pensar: isso aconteceu, mas não comigo. Pode lembrar e, mesmo assim, não se sentir implicada por aquilo que lembra.
Não estou falando de todos os eleitores — e seria impossível transformar milhões de votos em uma única intenção. Pessoas votam por razões diferentes: valores, interesses, experiências, economia, rejeição, identificação política, medo, esperança. O resultado de uma eleição não revela, sozinho, a consciência histórica de quem votou.
Mas existe uma questão que merece ser observada: o que acontece quando o voto deixa de ser pensado apenas como escolha de um projeto e passa também a ser usado como instrumento de rejeição ao outro?
A democracia pressupõe conflito. Podemos defender projetos econômicos diferentes, ter posições distintas sobre segurança, educação, direitos sociais ou o papel do Estado. A divergência faz parte da própria democracia. O problema começa quando o adversário deixa de ser percebido como cidadão e passa a existir apenas como inimigo. Talvez seja justamente aqui que a fotografia volte a entrar.
Uma imagem não pode decidir por nós. Não pode nos tornar automaticamente mais democráticos. Não pode impedir que repitamos aquilo que já conhecemos, mas pode dificultar que digamos que não sabíamos.
A fotografia de uma fila de eleitores em 1989 parece simples. Pessoas esperando, crianças acompanhando os adultos, um carro parado, corpos ocupando uma rua, mas aquela fila carregava uma história: era a primeira eleição presidencial direta depois de décadas sem que os brasileiros escolhessem diretamente o presidente. O voto presidencial havia voltado a ser uma experiência coletiva.
Hoje, olhando para aquela fotografia, sabemos que a democracia não é um acontecimento que se encerra quando uma eleição termina. Ela depende de escolhas sucessivas. E talvez seja por isso que uma fotografia antiga de pessoas esperando para votar diga tanto sobre o presente. Aquelas pessoas não estavam apenas diante de uma urna. Estavam diante de uma possibilidade que havia sido interrompida durante anos: escolher.
Décadas depois, nós continuamos escolhendo. E nenhuma fotografia pode garantir que uma sociedade continuará valorizando aquilo que conquistou. Ela pode apenas preservar o instante em que aquilo pareceu importante. Por isso, diante das eleições de 2026, talvez a pergunta não seja apenas se o Brasil se lembra. Talvez seja outra: o que fazemos com aquilo que lembramos? Porque esquecer é humano. Mas há momentos em que o problema já não é a falta de memória. É a escolha do que fazemos com ela!
(Foto: Fila de eleitores, 1989. Fotografia de Marcia Costa Dias / Agência O Globo, registrada durante a primeira eleição presidencial direta após a ditadura militar)
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