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Quando a memória já não basta (I)

Quando a memória já não basta (I)

passeata

Existe uma coisa curiosa na relação que construímos com a história: depois que uma conquista se torna parte da vida cotidiana, esquecemos que um dia ela não existia, como o direito de votar, de se manifestar, de ocupar as ruas, de organizar um sindicato, de defender publicamente uma ideia, de exigir direitos sociais. Hoje, muitas dessas possibilidades parecem naturais, como se sempre tivessem feito parte da ‘paisagem’ brasileira, mas elas nem sempre fizeram. E talvez seja justamente por isso que a fotografia mantenha uma relação tão particular com a memória: ela preserva aquilo que o tempo e o discurso podem, aos poucos, suavizar.

Há uma diferença entre ler que uma manifestação foi reprimida e olhar para o corpo de um estudante correndo de policiais. Há uma diferença entre saber que existiu censura e descobrir que uma fotografia foi impedida de chegar à primeira página de um jornal. E é por isso que o trabalho de Evandro Teixeira permanece tão importante. Em 1968, ele fotografou a Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, uma das maiores manifestações contra a ditadura militar. Uma de suas imagens, que trazia a faixa “abaixo a ditadura”, foi vetada pelos censores do Jornal do Brasil e outra fotografia ocupou seu lugar naquela capa.

A fotografia, naquele momento, não estava apenas registrando a disputa política. Ela também fazia parte dela. Evandro Teixeira chegou a chamar sua câmera de sua “arma contra a ditadura”. E talvez essa seja uma das maiores forças da fotografia documental: transformar um acontecimento em evidência. Afinal, a fotografia devolve o corpo à história, devolve o rosto, a rua, a multidão, o medo e aquilo que hoje parece distante foi, para alguém, um presente concreto. Mas também existe uma contradição: quando um direito deixa de parecer uma conquista e passa a parecer uma obviedade, que muitas vezes esquecemos que alguém precisou lutar por ele e transformamos uma conquista em uma ‘paisagem’.

Desta forma, continuar olhando é tão importante, não para viver eternamente no passado, mas para lembrar que aquilo que hoje chamamos de democracia, liberdade e direitos não apareceu pronto. Houve conflito, resistência, repressão, mobilização e pessoas dispostas a registrar aquilo que o poder preferia que não fosse visto.

E assim, a fotografia permanece como uma pergunta silenciosa: você se lembra do que foi preciso acontecer para que pudesse estar aqui? Talvez, o problema nem seja apenas esquecer, mas lembrar e, ainda assim, não se importar! O resultado deste último domingo nos coloca novamente diante de uma disputa marcada por visões políticas profundamente distintas. Alguns brasileiros talvez tenham lembrado; outros, talvez tenham escolhido esquecer. E no dia 25, voltaremos às urnas carregando não apenas dois nomes, mas também as imagens, as histórias e as marcas de um país que insiste em disputar o que deseja lembrar — e, principalmente, o que prefere esquecer!

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