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maria do rocio vaz cabeca

Profissão: Mãe

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Dia desses vi uma cena na rua que, embora comum, me comoveu. Registrei, discretamente, e guardei aqui dentro.

Uma mulher ruiva, cabelo preso, saia longa, sapatos baixos, semblante tranquilo. Trazia pelas mãos duas crianças – um menino de uns dois anos e uma menina de 4. Não parecia nem um pouco ameaçada pelo tempo, esse que um dia partirá seu coração.

Enquanto caminhavam pela calçada, eu, parada no sinaleiro, me permiti um instante de ficção: em que ela pensava? Para onde iam? Criava sozinha aqueles filhos? A vida lhe era dura, apesar da paz que seu rosto sugeria? Sim, as mães sabem sorrir quase sempre.

Também tentei me lembrar de quando saía a pé com minhas duas filhas pequenas. Descíamos e íamos na banca do Toni – hoje, o Toni Toys – comprar figurinhas, sorvete, pirulitos Push Pop e Chupa Chups. Às vezes, minha mãe as levava à Casa China, lhes dava algum dinheiro e elas escolhiam coisinhas. Era um delírio. Coisas de mãe e sua mãe.

“De tudo, ao meu amor serei atento”. A maior parte das mães – as que conseguem – entrega o máximo de presença, cuidado, brincadeira, interação. Faça chuva ou faça sol, deixa-se tudo para trás e transforma-se a dor em brincadeira de boneca. Mesmo que isso custe o sono, as forças ou a própria saúde.

Só sabe o que é ocupar esse lugar quem já se doou apesar do cansaço do corpo e da alma, da tristeza, do abandono. Ainda assim, há um milagre no amor.

Não estou reclamando, não. Esse foi o meu maior papel, meu grande sonho, o que me fez inteira.

Penso na jovem mulher do início e reflito sobre o que acontece com todas que vivenciam o ciclo: parir, cuidar, criar, ver crescer e, um dia, deixar ir. Não parece, às vezes, uma tarefa ingrata? Eles vão para o mundo e, de repente, olhamos para as mãos vazias.

Conheço muitas mães admiráveis: heroínas silenciosas, que entregaram suas vidas à família. Outras, dependentes financeira e emocionalmente, que se esqueceram de si por inteira dedicação.

Sei de muitas que falam com Deus na madrugada. Pedem pelos filhos. Algumas alcançam graças. Outras, não. Mas nenhuma perde a fé.

Enquanto as respostas não vêm elas se aquecem nas lembranças: as brincadeiras nas barracas, o ninho na cama para ouvir estórias antes de dormir, as Barbies, os Hot Wheels, as Fofoletes, os jogos nos dias de chuva, os tombos de patins, o primeiro dia no Jardim, quando a mãe foi dispensada – a filha era corajosa.

Em cada canto do coração há uma memória acesa. Será que mãe também é luz?

Vale reviver as Feiras de Ciências, as medalhas, a torcida na ginástica rítmica, os vestibulares, formaturas e conquistas celebradas. Como tantas, festejo ter vivido e aplaudido tudo o que uma mãe tem o privilégio de testemunhar. Sou grata.

Um dia tive o corpo transformado. “Tu me teceste no ventre de minha mãe.” Fui abrigo de duas sementes do bem. Notada pelo mundo por carregar uma barriga redonda, cheia de promessa, que se adiantava aos meus passos anunciando vida.

Orgulhosa, duas vezes, por responder: é menina. Feliz para sempre. Antes de tudo, antes de vê-las, antes de chamá-las pelo nome, eu as amei.

As mães são assim. Não escolhem. São escolhidas. E permanecem, mesmo depois da partida.

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