No início de 1986, há exatos 40 anos, o Brasil descobriu a pólvora. Digo melhor, descobriu a fórmula da paz social sem uso da pólvora. Do dia para noite a inflação estratosférica que nos corroía foi dizimada para a entrada triunfal em cena da grande panaceia. A solução de todos os males. O Plano Cruzado.
Pelo decreto do governo Sarney estavam proibidas as remarcações de preços. A partir de então, o que custava um dinheiro continuaria custando um dinheiro, mas a moeda seria outra, o Cruzado. Estava aposentado o Cruzeiro, depois de quatro décadas de maus serviços prestados à nação.
O efeito imediato do Plano Cruzado foi de euforia na população. A inflação havia acabado. Até um novo tipo de dedo-duro oficial foi implantado, o Fiscal do Sarney, disponível a qualquer cidadão. Em Curitiba, um ex-diretor da Sunab, órgão controlador de preços, deu voz de prisão, como braço levantado, como um Marechal Deodoro qualquer, a um simples comerciante, em nome do presidente da República. Foi notícia no Jornal Nacional, tratado como herói.
Com o tempo as coisas passaram a mudar de rumo. Muitos produtos sumiram das gôndolas, porque os custos de produção continuavam subindo e os preços se mantinham os mesmos. A carne estava entre os primeiros desaparecidos.
A luta para comprar picanha começou lá, não no governo do capitão. As pessoas cochichavam dando dicas de onde encontrar a carne preferida. “No Mercadão da Carne”, sussurrou um amigo meu. “Chame o Jarbas num canto e fale em meu nome, ele é de confiança e vai te vender uma peça”.
Assim todo mundo tinha seu fornecedor de confiança, naquela época de lei do mais rico, a valer para qualquer coisa, inclusive automóveis. Os churrascos continuavam acontecendo, porque as picanhas, filés e costelas seguiam sendo vendidas, embora a preços bem mais altos.
Vieram as eleições no fim do ano e o PMDB, o partido no poder, ganhou de cabo a rabo – rabo para a feijoada, bem entendido.
Ocorreu que uma semana mais tarde, o governo liberou a folia. Um novo decreto realinhou os preços, o Plano Cruzado foi para as cucuias e o povo se revoltou. Em Brasília, assisti a uma noite de depredações de dar inveja aos protestos de 2013.
As forças políticas se reagruparam, veio a Assembleia Constituinte e, em 1989 foi eleito um “caçador de marajás”, que não caçou marajá nenhum e foi apeado da cadeira dois anos mais tarde.
Pois é, aquela alquimia econômica há três meses completou seu aniversário de 40 anos. Não deixou nada a comemorar, nem estou propenso a comprar uma picanha.
Melhor esperar a antecipação do 13º.
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