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MARCUS VIDAL CABECA hojesc

PIL e a energia pós-punk

Quando John Lydon decidiu conceber Album, o quinto da discografia da sua banda pós Sex Pistols, PIL (Public Image Ltd.) ele estava menos interessado em manter a formação tradicional da banda e mais em capturar um som que representasse a amplitude de suas ideias naquele momento. A escolha de trabalhar com músicos de estúdio virtuosos e não com uma banda fixa, transformou o disco numa obra híbrida: moderno para os anos 80, mas com raízes profundas no experimentalismo do pós-punk e na energia física do rock. Foi lançado em janeiro de 1986 com produção de John Lydon e Bill Laswell.

album PIL

F.F.F. funciona quase como um manifesto rítmico. Começa com uma pulsação opressiva, um baixo espesso e seco que parece empurrar a faixa adiante como um motor industrial. A bateria tem um ataque firme, quase militar, enquanto as guitarras surgem em cortes rápidos, como flashes de luz em um ambiente sombrio. Lydon declama com tom irônico, cuspindo frases como se estivesse desmontando algum sistema opressivo.

 

 

Rise é o centro emocional do álbum. A faixa mistura um groove levemente dub com guitarras ascendentes que parecem iluminar o caminho da letra. Lydon canta de forma surpreendentemente melódica sem abrir mão do seu tom cortante. O refrão, repetitivo e catártico, funciona como um mantra. É uma das interpretações vocais mais envolventes da carreira de Lydon.

Em Fishing a linha de baixo é sinuosa e observadora; as guitarras entram como sombras, não como protagonistas. A canção tem um tom quase cinematográfico, lenta, em construção constante, com camadas que entram e saem sem aviso. Lydon canta como se estivesse narrando cenas fragmentadas do cotidiano, criando uma sensação de inquietação.

 

 

Round tem um groove acelerado, a bateria é viva e cheia de microvariações, e a guitarra entra com riffs circulares, fazendo jus ao título. Lydon alterna frases faladas e melodias abruptas, reforçando a ideia de repetição e ciclo vicioso. A canção tem um sabor quase dançante, mas sem perder seu caráter áspero e crítico.

Bags é uma das faixas mais densas e ritualísticas do álbum. A percussão cria uma paisagem quase tribal, enquanto o baixo pulsa de maneira pesada, profunda. Há um clima místico. A voz de Lydon surge mais distante, ecoando como se estivesse no centro de um ritual urbano.

 

 

Home é uma faixa mais melódica, de estrutura quase pop, mas sem abandonar o caráter híbrido do álbum. O refrão é marcante, com uma sinceridade inesperada em sua mensagem. As guitarras são mais suaves e os teclados adicionam uma camada de calor emocional. Lydon soa vulnerável, mesmo atrás de sua ironia costumeira.

O álbum encerra com Ease, uma faixa ampla, longa, de desenvolvimento livre. Começa de forma introspectiva, com instrumentos entrando aos poucos até formar uma parede sonora. A canção alterna momentos de calma e explosão, como se fosse uma jornada interna. Lydon canta menos como provocador e mais como observador, deixando o instrumental assumir o protagonismo nos momentos mais climáticos. É um fechamento sensacional.

Album é uma das obras mais peculiares do PIL. Maduro, técnico, emocional, cheio de nuances e distante da crueza punk, mas ainda carregando o espírito crítico de Lydon. É um álbum que mistura precisão de estúdio com intensidade visceral, e por isso permanece único no rock’n’roll. O bom e velho rock’n’roll.

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