A última edição da revista piauí contou a história recente da Gazeta do Povo. Da ascensão dos herdeiros ao ocaso. A longa reportagem, muito bem redigida, pintou de azul a ideologia, de rosa o pendor ultrarreligioso, de vermelho o rompante de imprensa (breve e inócuo) e de preto o futuro do grupo de comunicação que vai se esvaindo em lágrimas, tropeços e homilias.
Faltaram, infelizmente, todas as piadas de salão que cercam o poderoso rotativo desde 1919, quando o jornal foi fundado, e depois, em 1962, quando foi comprado por dois empresários que não entendiam necas do negócio. Mas entendiam de dinheiro. É o que sempre importou.
Do modo como a narrativa foi trabalhada, ouvindo fulano e beltrano, até parece que houve, em algum momento, uma tentativa do jornal de sair de sua condição de diário do governante de ocasião — de coturno ou de barba revolucionária — para se transformar em um combativo órgão de mídia. Isso nunca ocorreu.
A reportagem da piauí bem que se esforçou para mostrar que a virada do século teria sido determinante para que a Gazeta do Povo afastasse de vez sua condição de noticioso de paróquia, com os rapapés habituais, e assumisse um compromisso diário com a melhor versão da verdade que só o jornalismo profissional e independente pode oferecer.
Desinformados venceremos
Esse período, no entanto, foi tão insignificante que não tardou para que o chamassem de “lapso de imprensa”. Doravante, a Gazeta do Povo faria por merecer seu velho e certeiro dístico: “Não me venha com notícia”.
A culpa não é do herdeiro, da herdeira, da ideologia, da guinada conservadora, do progressismo ou do direitismo. A culpa é do jornalismo. Ou da falta dele. Por essa razão, um livro de anedotas explica melhor a história do diário paranaense.
Em 1993, a Gazeta estampou em manchete um trágico incêndio ocorrido em um orfanato de Curitiba. Era uma edição de mentira que seria usada em novela da Globo. O chefe de redação, no entanto, decidiu que poderia muito bem aproveitar a edição, que já estava na prensa, para fazer propaganda do folhetim eletrônico que, afinal, era orgulhosamente gravado na capital paranaense.
No mesmo ano, a Gazeta publicou em destaque na edição dominical, vendida aos montes nas bancas, informação sobre os poderes afrodisíacos do caroço de abacate. Detalhe 1: o caroço deveria ser engolido inteiro. Detalhe 2: o release entregue à redação foi produzido, a título de pilhéria, pela sucursal do Jornal do Brasil em Curitiba. E parece que envolveu uma aposta.
Cena obscena
Em 2001, uma foto da Fashion Week de Curitiba estampada na primeira página provocou escândalo. Na imagem, uma modelo era retratada carregando uma bolsa cuja estampa, sem retoques, exibia uma cena de sexo oral, conhecida também como felação. O capista não se deu conta, o editor de primeira página não se deu conta, o revisor não se deu conta, o diretor de redação não se deu conta. Mas os leitores, sim. Principalmente as senhorinhas da marcha com Deus e a família. Nunca dantes o jornal recebeu tantas reclamações.
Inimigo declarado dos donos do jornal, o governador Roberto Requião declarou guerra à Gazeta logo depois de vencer a eleição, em 2002, e retomar o comando no Palácio Iguaçu. Uma de suas promessas de campanha era acabar com o pedágio no Paraná. Por fim, a promessa não foi cumprida. Mas ele fez barulho.
A Gazeta do Povo deveria enfrentar o governo, entre outras razões, porque defendia a manutenção do contrato, porém temia as reações. E elas vinham em outdoors financiados pelo governo ou através da notória Escolinha de Governo de Requião, um suplício televisivo que era transmitido, ao vivo, às terças-feiras na Educativa.
É preciso consultar os arquivos do jornal para constatar quantas vezes as notícias sobre o pedágio foram substituídas pela transcrição ipsis litteris das decisões judiciais. Não só. Nas pesquisas eleitorais divulgadas no decorrer dos anos, o empate técnico previsto pelos institutos de opinião era afrontosamente desconsiderado. Se o jornalista insistisse, era substituído. A ordem era divulgar apenas os números frios e calculistas. Era um desserviço ao leitor e ao eleitor, evidente, porém cabia direitinho nas conveniências do jornal. Todas impublicáveis.
O espaço é curto para o anedotário. Mas há um caso em especial que não me sai da memória. Aconteceu no fechamento de uma edição de domingo, sempre editada de véspera e de antevéspera. Evocando o seu melhor estilo, o diretor de redação da época — não me perguntem quem —, certa noite, sentou-se à frente do computador, encarou o teclado e resolveu dar um toque literário a um artigo alheio que considerou simplório. Tascou: “Como afirmou Orson Welles no livro ‘1984’…”
Acredite. Está nos anais.


