Lançado em 11 de outubro de 1993, Vs., segundo álbum do Pearl Jam representa uma resposta direta e instintiva ao sucesso massivo do seu álbum anterior, Ten. Se o álbum de estreia era expansivo e cuidadosamente lapidado,esse é cru e agressivo. A produção de Brendan O’Brian privilegia a energia de banda tocando junta, com menos camadas e mais ataque. Musicalmente, o álbum se apoia em riffs cortantes, ritmos secos e performances vocais intensas, refletindo o desconforto da banda com a fama repentina.

A abertura com Go é explosiva. A canção começa sem introdução, com um riff abrasivo e bateria frenética. O baixo segue a guitarra em uníssono, criando uma parede sonora compacta. Eddie Vedder canta em registro rasgado, com frases curtas e repetitivas. A faixa é seca e direta.
Construída sobre um riff descendente, Animal alterna versos contidos e refrões explosivos. A dinâmica é central: guitarras recuam nos versos e avançam com força total no refrão. A bateria usa viradas simples, porém agressivas, e Vedder adota uma interpretação quase gutural.
Em Daughter o álbum desacelera e ganha espaço melódico. O riff é limpo, repetitivo e hipnótico, sustentado por um baixo minimalista. A bateria é contida, com uso de pratos suaves. Vedder canta com clareza incomum, valorizando a narrativa lírica. “Don’t call me daughter, not fit to, The picture kept will remind me, Don’t call me daughter, not fit to, The picture kept will remind me, Don’t call me.”
Glorified G é uma das faixas mais irônicas do álbum. Musicalmente, começa com um groove quase relaxado, com baixo proeminente e guitarra limpa. Conforme a canção avança, o arranjo ganha peso, refletindo a crítica embutida na letra. Vedder oscila entre tom narrativo e confrontacional.
Dissident se constrói em progressão: começa contida e cresce até um clímax emocional. A bateria acelera gradualmente, enquanto as guitarras ganham camadas. O vocal cresce em intensidade, acompanhando a tensão da história contada.
W.M.A. é uma das canções mais rítmicas do álbum. A bateria é o elemento dominante, com padrão quase tribal. O baixo complementa com linhas repetitivas, enquanto a guitarra atua mais texturalmente. Vedder canta com tom grave e cadenciado, enfatizando o caráter político da letra.
Em Blood a banda atinge seu ponto mais agressivo. O riff é dissonante, a bateria é caótica e o vocal é quase um grito contínuo. Privilegia impacto sobre clareza, criando sensação de claustrofobia sonora.
Rearviewmirror começa com andamento médio e textura contida, evoluindo para um final acelerado e libertador. O baixo assume papel central na segunda metade, e a bateria muda completamente de postura. Vedder acompanha essa virada com crescente intensidade vocal.
Mais nervosa, Rats usa riffs fantásticos e bateria cadenciada. O baixo é ágil, preenchendo os espaços deixados pela guitarra. A canção aposta em energia constante, sem grandes variações, mantendo tensão do início ao fim.
Elderly Woman Behind The Counter In A Small Town é a faixa mais delicada do álbum. Violão, baixo suave e bateria mínima criam um ambiente íntimo. Vedder canta com delicadeza e clareza, e a produção valoriza o espaço e a simplicidade.
Leash volta ao ataque. Riff direto, bateria acelerada e vocal carregado de indignação. A canção trabalha com repetição e intensidade constante, sem buscar grandes variações harmônicas.
O encerramento com Indifference é lento e contemplativo. A guitarra cria textura atmosférica, enquanto a bateria mantém pulso contido. Vedder canta com tom resignado, quase distante. A faixa encerra o álbum diminuindo a tensão e a agressividade. Excelente final.
Vs. é um álbum definido por dinâmica, agressividade e economia sonora. Mais cru que se antecessor. A simplicidade estrutural é usada como força e cada faixa contri bui para um retrato de tensão entre expressão artística e pressão externa. É um dos álbuns mais viscerais do grunge. Do rock’n’roll. Do bom e velho rock’n’roll.
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