Uma construção cujas fundações começam a ceder precisa muito mais que uma simples pintura de fachada, mas sim de um reforço estrutural urgente e severo. É exatamente esse o dilema dramático que o Brasil enfrenta hoje ao voltar seus olhos para o Supremo Tribunal Federal. O STF, projetado pela Carta de 1988 para ser a catedral da Constituição e o refúgio inabalável da segurança jurídica, atravessa um dos momentos mais críticos de toda a sua história. O que a nação assiste estarrecida ao longo dos últimos anos não é uma evolução institucional, mas um lento, doloroso e inegável afundamento moral, marcado pelo desvirtuamento completo de sua função precípua. A Suprema Corte, que deveria atuar como o farol da estabilidade republicana, transformou-se em um ambiente impregnado por ativismo judicial desmedido, imprevisibilidade decisória e atitudes que atropelam as garantias fundamentais do cidadão.
A majestade da lei reside precisamente em sua dimensão universal e impessoal: a legislação é soberana, impassível e rigorosamente igual para todos os indivíduos. Contudo, quando a análise recai sobre os próprios guardiões do texto constitucional, o rigor não pode ser apenas igual ao aplicável ao cidadão comum; ele precisa ser exponencialmente maior. Quem veste a toga suprema do país carrega nos ombros o dever moral e institucional de personificar a temperança, a imparcialidade, a virtude e a absoluta submissão ao império do Direito. Quando a balança da justiça passa a ser inclinada pela conveniência política de ocasião, por vaidades pessoais ou por inclinações de exceção, o próprio pacto democrático entra em perigoso estado de degradação. É preciso resgatar, sem hesitações, o princípio elementar de que ninguém — rigorosamente ninguém — está acima da lei.
Diante desse cenário sufocante, o povo brasileiro precisa acompanhar cada movimento com extrema atenção e altivez. Não podemos nos dar ao luxo de se contentar com migalhas de ajustes morais, manobras de maquiagem ou discursos apaziguadores de fachada. Superficialidades jamais curaram feridas institucionais profundas. A gravidade do momento exige uma reformulação profunda, corajosa e sistêmica. É indispensável que o país tenha a firmeza de defender o afastamento de ministros que desonraram o seu papel constitucional, abrindo caminho para um verdadeiro e inadiável choque de ética. Não se trata de vingança ou de retaliação partidária, mas sim de um indispensável ato de saneamento e restauração republicana.
Essa transformação, contudo, jamais virá de forma espontânea ou por mera benevolência daqueles que se encastelaram no poder. A história nos ensina com clareza cristalina que o arbítrio e os excessos só recuam quando encontram a barreira firme da sociedade civil organizada. As entidades de classe, as associações profissionais, os juristas comprometidos com a essência do Direito e, fundamentalmente, cada cidadão consciente precisam dar voz ao seu sentimento de indignação construtiva. A vontade soberana do povo deve se impor de maneira altiva, organizada e incisiva pelos meios institucionais legítimos.
Apenas com a sociedade civil despertando de sua letargia e se impondo com clareza é que poderemos nutrir esperanças reais de medidas que efetivamente mudem esse triste estado de coisas. O Brasil é uma nação grandiosa e vocacionada para a prosperidade, grande demais para aceitar caminhar de olhos abertos rumo ao precipício do autoritarismo e da insegurança jurídica. Passar o STF a limpo não é apenas um desejo político; é um dever moral com o presente e um compromisso inegociável com as futuras gerações. É tempo de unirmos a força da cidadania, resgatarmos a altivez nacional e recolocarmos o país no trilho da lei, da ordem e da verdadeira justiça.
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