Domingo de Páscoa, à noite. Sozinho no apartamento em Botafogo, lia o clássico Memórias do Cárcere, do mestre Graciliano, quando a campainha toca. Ali, na porta, estava o Frontino, irmão de uma ex-namorada, com um grande ovo de Páscoa nas mãos.
Achei que era um inusitado presente do coelhinho. Não era. Frontino, duro como eu, tinha ganho o ovo e estava com uma ideia genial na cabeça. Iríamos andar pelo calçadão da Avenida Atlântica oferecendo cotas de rifa do tal ovo às pessoas sentadas nas mesas dos bares.
Recortamos umas folhas de papel sulfite, numerando cada pedaço, de 1 a 100. Começamos pelo Leme e dali seguimos pelo posto 2 e seguintes. Dois rapazes de cara limpa, simpáticos, sorridentes, oferecendo a 5 pratas um número para ganhar o grande ovo.
Ocorreram, então, dois problemas. O primeiro, um empresário, como deduzimos, nos alertou: nosso produto estava fora de mercado. A Páscoa era coisa do passado, tinha ocorrido naquela manhã. Concordamos que ele tinha razão.
O segundo problema estava na consistência do produto. Com o calor carioca, o ovo começou a dar sinais preocupantes de amolecimento quando estávamos perto do posto 5. Foi a gota d’água.
Sentamos em uma daquelas mesas, Frontino rasgou o invólucro para degustarmos a pasta marrom. Com o chocolate semidestruído – os despojos foram recusados até por um morador de rua – cada qual pegou seu ônibus. Saldo da empreitada: nenhum bilhete vendido.
O prejuízo continuou pelo dia seguinte, em formato líquido. Ao raiar da madrugada, meu corpo entrou em violenta revolução intestina. O maldito chocolate vingou-se do desdém com que foi tratado.
Ganhei três dias de atestado médico, passados no trono, qual um rei cagalhão.
Melhor teria sido ficar por conta do mestre Graça, mesmo porque a Páscoa já passou e esta crônica está tão anacrônica quanto o rejeitado ovo.
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