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ERNANI BUCHMANN CABECA hojesc

OVNIs no sertão

Deu-se que um balão meteorológico foi lançado da base da Barreira do Inferno, no Rio Grande do Norte. O artefato desintegrou-se pouco depois e seus fragmentos flutuaram pela região. Dias mais tarde surgiram de madrugada na região rural de Araruna, no interior da Paraíba. Dançando no firmamento e refletindo o brilho da lua, os estilhaços impressionaram três matutos insones.

Foi o suficiente para o alvoroço: eram OVNIs no céu do sertão. A notícia logo chegou a Campina Grande e virou pauta de jornal, rádio, TV – repórteres, câmeras e fotógrafos foram escalados para entrevistar as testemunhas.
Ninguém se impressionou com as aparições, até que um repórter resolveu espremer os caboclos:

– Vocês sabem o tamanho de São Paulo?

Sim, sabiam que era cidade grande. “E Nova Iorque, Londres, Paris?” Também tinham ouvido falar.

– Então vocês acham que os extraterrestres, em vez de aparecerem para milhões de pessoas, iriam escolher vocês?
Nenhum deles teve resposta, mas um cinegrafista gozador completou:

– A não ser que tenham parentes aqui!

Os três arregalaram os olhos. Quem poderia ser? Logo surgiu o nome do padre, sujeito mirrado, rosto encovado, pálido como cadáver. Parecia mesmo saído de um disco voador.

Nos meses seguintes o número de fiéis na igreja passou a diminuir. Ninguém mais queria se confessar com o pároco, suas homilias eram vistas como coisa do diabo, até a fila da comunhão mingou.

O padre, decepcionado, foi se queixar ao bispo. Alegou não ter mais condições de continuar na cidade, queria transferência para onde não fosse confundido com o demônio.

O bispo coçou a cabeça, apoiou o nariz no dedo indicador e perguntou:

– Padre, quem foi capaz de fazer coisa tão desumana consigo?
– Sei quem foi.
– Por favor, abra seu coração. Quem inventou isso?
– Foram aqueles fiasdaputa da reportagem.

Pois é, caro leitor. A imprensa é um perigo, capaz até de desinventar OVNIs e tripudiar com a reputação de um pobre sertanejo de batina, perdido nos sertões cheios de naves a prenunciar o fim do mundo.

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