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ERNANI BUCHMANN CABECA hojesc

Os sete homens voltarão outra vez

Em 2016, ano em que o arrebatamento causado em Cannes pelo cultuado filme japonês Os Sete Samurais fez seu 62º aniversário, o cinema norte-americano lançou nas telas de todo o mundo a sexta – ou sétima, dependendo do ponto de vista – versão do clássico dirigido originalmente pelo mestre Akira Kurosawa.

No Japão seiscentista, o velho Samurai Kambei é contratado para defender uma aldeia indefesa, constantemente saqueada. Com a ajuda de outros seis samurais, ele treina os moradores para resistirem a um novo ataque.
Entre os sete filmes, o único ponto em comum, além do número, é a repetição da história: um grupo de pessoas humildes – agricultores, colonos, imigrantes mexicanos ou índios – sofre violência sistemática de um grupo formado por bandidos dos mais variados matizes. Portanto, não se trata de uma série, mas novas versões sobre o mesmo tema.

No caso dos samurais, eles lutam a favor das vítimas pela honra. Nas versões hollywoodianas, por algum dinheiro. No quinto filme da série, os justiceiros agrupados por Lee Van Cleef querem sua respectiva sentença de absolvição. Na verdade, são tão bandidos quanto os seus adversários.

O sucesso dos Sete Samurais fez com que Anthony Quinn se interessasse em localizar a luta no velho oeste, artifício capaz de sensibilizar o público norte-americano. Quinn deu a Yul Brynner, de quem era amigo, um primeiro roteiro. Brynner repassou a outro roteirista e a Metro assumiu o projeto. O diretor escolhido foi John Sturges, craque em filmes de ação.

Ao ser lançado nos Estados Unidos, The Magnificent Seven não agradou. Só depois de ser bem sucedido na Europa é que passou a ser elogiado – e assistido – na América do Norte. O sucesso de Sete Homens deve-se ao roteiro, ao cast escolhido (Steve McQueen, Charles Bronson, James Coburn, Robert Vaughn se tornaram astros de Hollywood). Brad Dexter e o jovem ator alemão Horst Buccholz foram as exceções, este último porque resolveu voltar a filmar na Alemanha. Brad Dexter, ator coadjuvante, ficou mais conhecido por ter salvo Frank Sinatra de um afogamento.

Como escreveu Gay Talese, Sinatra estava no Havaí dirigindo o filme Os bravos morrem lutando, com Drexter no elenco. Certo dia resolveu dar um mergulho, a maré alta levou-o e o fortão Drexler nadou para salvá-lo. Em agradecimento, o cantor deu-lhe um emprego permanente como funcionário de sua empresa. Ao dois ficaram amigos, a ponto de Drexter fazer-lhe companhia nas noites de Los Angeles.

Já Eli Wallach, como o bandido Calvera, roubou a cena nas sequências de que fez parte. Nos créditos finais, há a necessária referência ao original japonês. Tudo isso, mais a trilha sonora composta e regida por Elmer Bersntein transformou o filme em cult.

A trilha foi utilizada em todos os filmes da série, ainda que na última versão para os cinemas ela seja ouvida apenas durante os créditos finais, como homenagem a uma das trilhas mais ouvidas em todo mundo,

Em 1966, Yul Brynner voltou a personificar o líder Chris, juntando outros cinco homens para defender a aldeia em que vive Chico, antes o sétimo deles e personagem de Buccholz na versão anterior. O filme é o mais fraco de todos, pelo roteiro chinfrim, pela direção ruim (Sturges não estava mais no projeto, nem os demais atores), pelo excesso coreográfico e pelos maneirismos de Brynner.

Mesmo assim, pagou o investimento, de forma que em 1969 a MGM lançou sua terceira versão, A Revolta dos Sete Homens, agora com George Kennedy como Chris. O único que não se veste de preto.

O público queria mais. Em 1972 surge a versão que ganhou em português o nome de A Fúria dos Sete Homens com Lee Van Cleef chefiando o grupo no papel principal. O roteiro criativo, mostra Chris como xerife, casado com uma mulher muito mais moça, que é sequestrada, violentada e morta por um bando de jovens. Chris vai à prisão de Tucson, Arizona, de onde saca cinco bandidos, todos presos por ele. Acompanhado por um escritor que pretende escrever sua biografia e levando a sentença de absolvição dos cinco no bolso, Chris trata de caçar os inimigos. Então o roteiro repete os demais.

Quando já se imaginava que a saga dos sete homens tinha encontrado seu fim, a Metro lançou em 1998 uma série televisiva com o mesmo nome, com Michael Biehn como Chris Laraby (já tinha sido Chris Adams, no primeiro filme americano). O projeto foi apresentado em um longa-metragem de 80 minutos. É a única versão em que nenhum dos sete homens morre na batalha final. Dois ficam feridos, mas recuperam-se para estrelar os 22 capítulos seguintes, exibidos durante três anos, antes da série ser dada por concluída.

Enfim, veio a produção de 2016, dirigida por Anthony Fuqua e trazendo um elenco estrelar. Pela primeira vez, o protagonista não é Chris, mas Chisolm – nome do personagem de Denzel Washington.

O filme é divertimento garantido. Com um custo de produção de U$ 90 milhões, conseguir pagar os custos e oferecer algum lucro aos produtores. Não é para menos. Fuqua é um diretor talentoso e seguro. O grupo de atores – Chris Pratt, Ethan Hawke, Byung-Hun Lee, Vincent D’Onofrio, Manuel Garcia-Rulfo, Martin Sensmeier e a atriz Haley Bennet – domina a tela e segura a plateia. A harmonia entre os personagens é evidente, os truques são bem concebidos e os efeitos espetaculares. Alguns personagens são baseados em antecessores. Diversas cenas também remetem aos filmes anteriores.

Em pouco mais de duas horas de projeção, a gangue do inescrupuloso Bogue é exterminada. Sobram três dos homens – além de Denzel Washington, Garcia-Rulfo, que herdou o papel que seria de Wagner Moura, excluído do filme por conta de seu trabalho em Narcos – e o índio Martin Sensmeier.

Eles deixam a cidade, com dezenas de corpos esparramados pelo chão, em direção a algum destino que já se permite adivinhar qual seja. A próxima versão de The Magnificent Seven – os intermináveis Sete homens e um Destino.

Pois não é que eles voltarão? Em formato seriado, a Metro lançará a nova versão em oito capítulos, com Matt Dillon como Cris Adams. A produção, a cargo da Amazon, começa no mês de junho, com lançamento previsto para 2027 ou 2028.

Conforme o releasae, Chris Adams é o líder de um grupo de pistoleiros que se unem para proteger uma vila de um barão da terra mercenário. A descrição do personagem o define como “estoico, firme sob pressão e com um olhar inabalável que fala por ele, Chris não tem paciência para hipocrisia ou crueldade e se apega a um código moral silencioso baseado em justiça e moderação”.

Ainda de acordo com o texto de divulgação, “a série honra o legado do filme original, explorando temas como coragem, redenção e a luta contra a opressão. A trama se passa na tumultuada fronteira americana dos anos 1880, onde os mercenários são contratados para defender uma vila Quaker pacífica após um massacre”.

Por enquanto, aproveite para ver as versões existentes, com as repetições de cenas e as homenagens, filme a filme. O dente de ouro de um dos personagens da versão televisiva é usado também por Ethan Hawke, que ainda une as personalidades de Robert Vaughn e Brad Dexter do filme de John Sturges. Hawke, como Dexter, foge da batalha final para ressurgir no meio do tiroteio.

No filme com George Kennedy, um garoto mexicano chama-se Emiliano Zapata, o futuro revolucionário. Fernando Rey, grande ator espanhol, faz um padre e, no filme seguinte, um politico (versões de 1966 e 1969). Desde James Coburn no filme de 1960, há especialistas no manejo de facas e alguém é manipulador de baralhos, como Robert Vaughn, também personagem da série de TV, como o juiz Oren Travis.

Última informação: Vaughn, sempre ele, estrela o filme de ficção científica Mercenários das Galáxias (1980), igualmente baseado nos Sete Homens. A ação se passa no planeta Akir, referência explícita a Akira Kurosawa.

Eis todas as versões:

Os Sete Samurais (1954); Sete Homens e um Destino (1960), A Volta dos Sete Homens (1966), A Revolta dos Sete Homens (1969); A Fúria dos Sete Homens (1972); Sete Homens e um Destino (1998, longa de apresentação da série homônima); Sete Homens e um Destino (2016); Mercenários das Galáxias (1980). Quase todos são encontráveis no streaming ou YouTube.

O fascínio parece não tem fim.

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