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JAINE VERGOPOLEM

Os corpos que desobedecem a forma

Autorretrato Graciela Iturbide - JPEG

(Autorretrato, México. Foto: Graciela Iturbide.)

Há fotógrafas que registram o mundo. Graciela Iturbide o atravessa.

Seu olhar não busca explicar nem traduzir culturas; ele permanece. Observa em silêncio, como quem sabe que algumas imagens não pedem legenda, mas escuta.

No centro de sua obra está o corpo — não como forma ideal, mas como território simbólico. Corpos femininos, indígenas, rituais, atravessados pela vida cotidiana e pelo sagrado. Em suas fotografias, o corpo nunca é neutro: carrega história, mito, violência e resistência.

Ao longo de décadas, Iturbide acompanhou comunidades indígenas no México, especialmente povos como os Seri, no deserto de Sonora, e os Zapotecas, em Juchitán. Nessas imagens, não há exotização. A câmera não invade; convive. Seus corpos escapam às normas ocidentais de beleza e proporção porque obedecem a outras lógicas — cosmológicas, territoriais, espirituais.

Seios, gestos, posturas e adornos não respondem ao olhar colonial, mas a culturas onde o corpo é extensão da terra e da memória. São corpos que desobedecem a forma porque se recusam a caber em categorias externas.

O feminino, em sua obra, aparece potente e ambíguo: mulheres que sustentam o mundo, que carregam vida e morte no mesmo gesto. Não há erotização gratuita nem pudor imposto. Há presença!

Graciela Iturbide nos lembra que a fotografia documental pode ser poética — não pela suavidade, mas pela densidade. Suas imagens não gritam denúncia; elas permanecem. E é nessa permanência que reside sua força.
Olhar Graciela é aprender que nem todo corpo quer ser explicado.

Alguns existem para nos deslocar.

E, ao fazê-lo, nos obrigam a rever não apenas o que vemos, mas de onde olhamos.

Mujer angel Desierto de Sonora
(Mujer ángel, Desierto de Sonora. Foto: Graciela Iturbide.)

 

Confira mais trabalhos da artista: [https://www.instagram.com/gracielaiturbide/].

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