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Olávio

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Assim, do nada, dou de cara com o Olávio. Tinha ganho uns bons quilos desde a última vez que o vi, há uns 45 anos, fazendo jus ao apelido da juventude: Olável, o inflável.

– Olávio, como vai? Pensei que estivesse na África!
– Voltei há muitos anos.

Ficamos nisso, que a conversa não fluiu. Olávio parecia desconfiado, quem sabe esperasse que a fraude que nos ligava tivesse sido esquecida. Não só não esqueci como vou contar.

Certo dia recebi um recado: o pai dele queria falar comigo. Como Olávio andava doente, no hospital, achei que tinha virado estrelinha. Nada disso. Acontece que a doença não permitiu a ele frequentar as aulas no colégio, levando seu cauteloso pai a providenciar a troca por um pagou-passou na Rua Comendador Araújo, o suficiente para que recebesse no fim do ano o diploma do colegial, certificado exigido para conseguir emprego em uma petroleira que operava em Angola. A única exigência era fazer as provais finais.

A questão é que o fim do ano estava às portas e Olávio continuava sem condições de prestar os tais exames. O pai, preocupado, juntou alguns amigos do filho e fez a todos o mesmo pedido. Que fizessem as provas como se Olávios fossem.

Jonelão, que tinha passado no vestibular de Engenharia, faria a de Matemática, Márcio as de História e Geografia, Brener, professor no Interamericano, ficou com Inglês e a mim coube a de Português, incluindo Redação, exigência para o vestibular – do qual eu já tinha me livrado, passando em Direito na Federal. Por isso, avisei: se fôssemos descoberto o crime seria de falsidade ideológica, poderia dar prisão. Ninguém deu a menor bola.

O pai do Olávio prometeu cem pratas a cada um. Márcio e eu reclamamos, tínhamos duas provas. O homem regateou, deu razão ao Márcio, mas argumentou que a minha era uma prova só. Bem, cenzão não é nada, não é nada, não é quase nada mesmo. Aceitei mesmo assim. Combinamos que iria ser preciso errar algumas questões, o Olávio original não era conhecido pela erudição. Brener ficou de trocar “for” por “to”, Márcio erraria algumas capitais e o grande Jonel faria o serviço em alguma equação de segundo grau.

No dia da prova, apresentei-me como Olávio e não fui contestado. Nem eu nem os outros Olávios, pelo fato de os professores serem diferentes. Ou, caso não fossem, a eles não cabia aquele tipo de fiscalização.

Na prova de Português, conhecendo Olávio, fiquei sem responder o que era hipérbole e afirmei que figura de linguagem era usar desenhos para ressaltar o que se queria dizer. Na redação, transformei Olávio em um quase intelectual, ele que nunca tinha lido um livro. O tema do ponto sorteado era Uma aventura na mata.

Lembrei que no ano anterior alguns alunos do Medianeira tinham feito uma excursão para encontrar os destroços do avião da Sadia, acidentado na Serra do Mar lá pela década de 1960. Incluí Olávio naquela aventura e fiz uma digressão sobre Henry Thoreau, minha paixão na época, amor dividido com O apanhador no campo de centeio.

Fui embora feliz da vida. Olávio seria aprovado com um 7,5, por aí. Estava de bom tamanho, fiz jus ao cascalho. E mais: nenhum professor teria coragem de reprovar aluno tão dotado quanto Olávio, capaz de incorporar-se em quatro personas, e assim apto a receber o diploma do ginásio para se tornar empregado de uma petroleira em Angola. De onde voltou há muitos anos.

Imagem: gerada por IA

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