Pensei que petralhas e bozos (para ficar nos termos em voga) representassem o suprassumo do ódio na campanha à presidência. Dessa escala não passaríamos, pelo menos no que diz respeito ao publicável. Então Renan Santos aconteceu. É difícil medir a personagem que o candidato derrotado à presidência quer representar – anticomunista, antipetista, plutocrata, o primo rico da comédia ou o Scrooge sem concessões de Charles Dickens. Mais: que tipo de ‘caça às bruxas’ ele pretende promover? Nos debates que aconteceram e não aconteceram, só faltou dizer que ‘comunista come criancinha’ – no sentido ifood e não if*ck, se é que me permitem a licenciosidade. Quem poderia imaginar que o ativista do Movimento Brasil Livre (MBL) virasse candidato à presidência em um partido do tipo messiânico por acaso, mas não por coincidência, chamado ‘Missão’.
Seu estilo ‘mata, esfola, estupra, mas não mata’ faria de Maluf uma Madre Teresa de (Oh!) Calcutá sem reparos. Diante do inimigo – Flávio Bolsonaro e não Lula – Santos mostrou os caninos. É um hidrofóbico sem compostura. De um lado, afagando o eleitor Nem-Nem, de outro mirando o eleitor de Bolsonaro filho com uma escopeta calibre 12. Ele quer fazer estrago. Incorporou a reflexão de Aristóteles que diz que todo homem é um animal político, mas na versão ‘O Planeta Diário’: todo político é um animal.
O que se vê é um discurso retrógrado e bocó: ‘Esquerdista alaranjado’; chega de PT, de bandeira vermelha; sem tolerância com o MST; redução da maioridade penal; bandido bom é bandido morto, mais presídios, mais segurança, mais polícia, mais dureza, vote Contra Todos e por aí vai. Bem que poderia não voltar.
Por razões que cabe aqui ignorar, uma ínfima parte do eleitorado o leva a sério. Não deveria. Nem o general Mourão ousou tanto. Ao se pautar pela política da coerção, do destrato e da manus militari, o paulista escorregou feio. Súbito, só ele salva. Errou no Jesus, errou no país, errou no tempo. Com míseros 2 pontos percentuais na apuração de votos, ‘Adolfinho’ é a cara de um partido que não sabe a que veio. Que Missão, cara pálida? Os adversários estão certos: ele se acha o dono da bola, o que provavelmente diz muito sobre sua vida nababesca de quem só joga porque carrega debaixo do braço a pelota. Por outro lado, o garoto prodígio demole também a ideia sem qualquer sentido de que o ‘não político’ seria prova irrefutável de competência. É uma aposta arriscada de vezo e viés populista.
Único integrante do movimento tropicalista que fincou raízes no estado, o baiano Tom Zé, deve estar nesse momento de cabelos arrepiados com a perspectiva de que ‘São, São Paulo, Meu Amor’, caia na mão de um político, nascido em São Paulo, que emana ódio pela caxemira pousada nos ombros. Adoniran Barbosa, vivo, cantaria o ‘Samba do Adolf’, uma versão repaginada daquele do Arnesto, que desta vez foi procurar democracia nas propostas ‘missionárias’ e deu com a cara na porta. Baita de uma ‘réiva’.
Leia outras colunas do Marcus Gomes aqui.


