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marcus gomes

O que ‘Ato de Matar’ nos diz sobre as eleições?

documentário

A Indonésia é aquele arquipélago encravado entre os continentes da Ásia e Oceania, corriqueiramente inundado por tsunamis. É também o cenário real do documentário ‘Ato de Matar’ (The Act of Killing), do diretor Joshua Oppenheimer, e prova irrefutável de que, tal como afirmou um dia o escritor Eric Hoffer, ‘os movimentos de massa podem surgir e expandir-se sem uma crença em Deus, mas nunca sem uma crença no demônio’.

O filme está disponível no streaming e horroriza desde o primeiro momento em que Oppenheimer nos apresenta seus protagonistas: assassinos de Suharto, o ditador que governou a Indonésia de 1967 a 1998 com manus militari e ódio aos comunistas. Por comunistas, entenda-se: alinhados com Mao-Tsé-Tung, não alinhados, opositores, proto-opositores e denunciados por qualquer circunstância.

Oppenheimer foi chamado à Indonésia, em 2001, para ensinar trabalhadores de uma plantação a produzir seu próprio documentário. Eles estavam dispostos a denunciar as péssimas condições de trabalho e as sequelas purulentas deixadas em seus corpos por herbicidas.

Ao iniciar o trabalho, o diretor se deparou com uma história assustadora. Uma milícia que teria sido responsável pela matança de 500 mil comunistas e imigrantes chineses durante os primeiros anos loucos do governo de Suharto.

‘O que descobri foi que todos eles se gabavam abertamente e não só estavam ansiosos para me contar o que fizeram como queriam me levar para os lugares onde mataram e demonstrar como tinham feito’.

Oppenheimer ficou atrás das câmeras e os assassinos se encarregaram de interpretar as cenas sangrentas, assumindo personagens, produzindo histórias inspiradas no faroeste e demonstrando como matavam os ‘vermelhos’. O método comum, que não sujava o chão, era enrolar uma forca de arame no pescoço da vítima e esganá-la.

Oppenheimer concentrou as filmagens em Anwar Congo, por considerá-lo um assassino cuja sombra de culpa pairava em algum lugar. Era uma espécie de açougueiro existencialista. Ele se autodenominava um ‘gângster’, um homem livre. Até que o golpe militar fosse desencadeado, em 1965 e 1966, Congo ganhava a vida como cambista de cinema. Comprava bilhetes dos filmes americanos e quando as vendas se esgotavam, oferecia-os aos interessados com um pequeno ganho, um ágio.

Membros do grupo paramilitar Pancasila Youth – até hoje ativo – também fizeram parte do filme. Um deles, roliço e alegre, sujeitou-se inclusive a vestir roupas de mulher para interpretar vítimas e prostitutas. De certa maneira, toda a família de Congo foi envolvida. Há cenas medonhas em que uma criança, neto do gângster, chora compulsivamente para cumprir o papel de testemunha da tortura de uma família de opositores.

O ‘mal’ é o comunismo, mas poderia ser o capitalismo. Se a Indonésia caísse nas garras de Sukarno, o primeiro presidente do país, após a declaração de independência em 1945, no pós-guerra, as cenas de sangue envolveriam os chineses que fugiram do comunismo e qualquer cidadão suspeito de colaborar com o Satã soviético.

O que isso tem a ver com a eleição de 2026 no Brasil? Tudo. Agora mesmo, o PT de Lula se põe em armas para instalar o clima de ódio contra seu provável oponente no segundo turno, com uma frente de esquerda improvável. Há quatro anos, o petista fez o mesmo. Uniu a esquerda e depois a desuniu para abrigar os seus no governo, inclusive aqueles declaradamente de direita.

A imprensa chama de extrema-direita o que é de direita ou, vá lá, de centro-direita. O PT pode ser de extrema-esquerda em congressos e reuniões de cúpula. Fora dele, não é sequer esquerda. No espectro, Lula, que é o que importa, jamais foi vermelho. Está mais para rosa pálido.

Que agora se encham do colorido da política é de esperar. Não demora, Flávio Bolsonaro fará ressuscitar a Ursal (União das Repúblicas Socialistas da América Latina) com aquela vontade de se aliar à dinastia Kim na Coreia do Norte. Não demora, e Bolsonaro, o filho, surgirá pintado com aquele bigodinho de Hitler – que lhe cai bem, convenhamos.

Se o caro leitor pensa que há aqui algum exagero, desengane-se: ‘A destruição da decência moral e a transformação dos outros em animais repelentes é a coisa mais banal do mundo’, como afirma João Pereira Coutinho. Tão banal que inspirou a filósofa Hannah Arendt a cunhar a expressão “banalidade do mal” a propósito das atrocidades nazistas contra judeus. Expressão que estendeu depois, quando reveladas, à carnificina stalinista contra opositores do partido, poloneses, judeus de qualquer nacionalidade e ucranianos, a quem mataram de fome em escala pavorosa.

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