
Por que Fortunato, do conto “A causa secreta”, de Machado de Assis, não atingiu o topo da fama tal qual Capitu? Ora, antes de existirem os olhos de ressaca da personagem de Dom Casmurro (oblíquos e dissimulados), já estavam lá os olhos de chapa de estanho, duros e frios, de Fortunato. Isso sem contar as suas outras feições, que nunca foram atraentes.
Fortunato zombava das vítimas: zombou daquele que salvou de uma malta de capoeiras e daqueles que agonizavam na Casa de Saúde que abriu com o médico Garcia. Ele preferia os cáusticos. “Os cáusticos”. Envenenados quase sem vida, suicidas malsucedidos, sorvedores de produtos químicos e ainda aqueles que padeciam com a pele em brasa a derreter-lhes dos ossos; supliciados, esfolados.
Ia ao teatro o tal Fortunato para enlevar-se com os dramalhões “cosidos a facadas”. Nos lances dolorosos, inclinava-se na cadeira e bebia do melhor e do pior. Ao fim, saía cabisbaixo, “parando às vezes para dar uma bengalada em algum cão que dormia”.
Não se sabe se Machado de Assis conheceu a obra do médico francês Philippe Pinel, o primeiro a estudar a psicopatia e a defini-la como algo que estava no limiar da sanidade — uma “mania sem delírio” ou “mania racional”. É provável que sim. Pinel publicou seus trabalhos no início do século XIX, e sua principal obra, o Tratado Médico-Filosófico sobre a Alienação Mental (frequentemente referido como Tratado da Insanidade), foi impressa também na Inglaterra e nos Estados Unidos. Como se sabe, Machado lia francês e inglês.
O conto “A causa secreta” veio a público em 1885. Nele, Fortunato é descrito como um psicopata em franca evolução. Ele não só sente prazer com a dor alheia, mas também estuda anatomia e fisiologia, e passa a estripar gatos e cães. Primeiro, em uma sala do hospital; depois, em um gabinete de sua própria casa. O ápice da crueldade revela-se em detalhes na narrativa da tortura do rato. O bicho, pendurado pelo rabo por um fio, agoniza com as patas cortadas enquanto Fortunato o queima em um pires flamejante. Por fim, corta-lhe o focinho e abandona o moribundo, que havia ousado roer um de seus papéis.
Um professor de literatura já descreveu Machado de Assis como um “Júlio Verne do inconsciente”. Definitivamente, o escritor era íntimo dos mistérios da alma antes mesmo que as teorias de Freud sequer fossem idealizadas. Fez mais: em O alienista, publicado três anos antes, Machado fez de seu Simão Bacamarte um médico a indagar: “afinal, quem é o louco?”, colocando no chinelo teóricos que só depois viriam a conquistar fama com o mesmo questionamento, ainda que em bases empíricas.
Machado compara a personagem a Calígula em seu egoísmo aspérrimo, faminto de sensações. Morta a mulher, levada pela tuberculose, Fortunato sequer se dá ao trabalho de derramar uma lágrima. Pública ou íntima.
Ao final, o sádico saboreia a visão do beijo de Garcia na defunta. “Não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero”. E de uma dor moral longa, muito longa, deliciosamente longa.
Se Fortunato fosse submetido ao Psychopathy Checklist de Robert Hare — uma ferramenta que avalia as características de um psicopata —, qual seria sua pontuação? É difícil precisar. Fortunato é falador e charmoso? Pode-se dizer que sim. Egocêntrico? Sem dúvida. Apresenta uma tendência ao tédio? Ele certamente se enfastiou ao receber o agradecimento do empregado do arsenal de guerra. É um mentiroso patológico? Bem, ele se diz um capitalista. É manipulador, um vigarista? Assumiu uma função na Casa de Saúde que não lhe cabia. Apresenta ausência de remorso ou culpa? Ele não parece preocupado com a dor das vítimas, ainda que aparentemente só inflija dor a cachorros, gatos e ratos (não necessariamente nessa ordem), mas essa é também uma característica de serial killers em início de carreira. Não tem emoções? Sequer as conhece.
Falta de empatia? A mulher, Maria Luísa, que o diga. Estilo de vida parasitário? Não há sinais. Descontrole comportamental, promiscuidade sexual, transtorno de conduta na infância, delinquência juvenil? Trata-se de um conto, não de um romance. Machado não vai a fundo na história pregressa da personagem. Incapacidade de aceitar a responsabilidade pelos próprios atos? Ele não vê problema algum em deixar que a mulher assista às suas torturas, nem parece se dar conta do quanto tudo aquilo a deixa doente. Ele se superestima? Certamente se julga superior aos simples mortais. Não padece, por exemplo, de ciúmes. E tem grande prazer com a dor alheia, mesmo que não seja física, como aquela que Garcia demonstra no parágrafo final.
Hare estabeleceu a nota de corte para identificar um psicopata em 30 pontos. Fortunato bateria essa contagem com folga. Talvez até a ultrapassasse.
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